Autorias em perspectiva

Por Scheilla Franca e Diego Franco


Se a olharmos a Sessão Autorias em perspectiva, sobretudo em termos da sua transformação na MFL, será possível perceber algumas particularidades que potencializam seu lugar dentro de nossa programação. Ela surgiu oficialmente há quatro anos, durante o processo de curadoria para a edição de 2016, com o nome de Autores Livres. Sua finalidade inicial era de ser um espaço de exibição e debate de filmes cujos autores já apresentassem um histórico de diálogo estético com os valores que gravitam em torno da ideia de filme livre. Realizadores como Helena Ignez, Dellani Lima, Gustavo Spolidoro, Arthur Lins, André Novais, Pedro Diógenes, Petrus Cariry e o Duo Strangloscope foram alguns dos selecionados para compor esse espaço da mostra em seus momentos iniciais. São realizadores que, em sua maioria, contribuíram com a construção da ideia de liberdade no cinema contemporâneo, estiveram presentes na MFL fomentando discussões sobre formas de fazer audiovisual que, naquele momento, não encontravam tanto espaço em outros festivais – a maior parte deles por questões da não aceitação do digital. O afeto e o desejo de destacar estes gestos de engajamento deu lugar à criação da Autores livres, batismo primeiro desta sessão.


No entanto, desde a MFL 2018 esse espaço vem sendo rediscutido com o desejo de ampliar os debates e fomentar discussões em torno mesmo da ideia de autor ou autoria. Afinal, a questão do Autor no cinema, ou mesmo a ideia de um cinema de autor como indica a discussão da politique des auteurs truffautiana, desde meados do século XX, é um ponto fértil de discussões que se renovam. De tempos em tempos se ampliam espectros em torno das possibilidades de uma certa noção de autenticidade, de inscrição de si, da pessoalidade na arte, no cinema. Como pensar esta questão da autoria no cinema contemporâneo? Como pensar a questão da autoria no cinema independente, em suas múltiplas faces? Entre as ideias de Autores Livres e Autorias, o que se transforma e o que permanece?


A forma como grafamos o novo nome indica algo de nossa perspectiva atual: onde está o autor nas autorias? Nos interessa pensar que esta função não está mais circunscrita a um sujeito, mas aparece de forma ampliada, do homem ao ato, do autor à autoria. Ou ainda, autorias. O adjetivo – que marca o nome de todas as outras sessões da MFL - foi suprimido em razão de um concisão: autorias. O que há de livres nas Autorias? A ideia romântica do autor como centro criativo e origem da obra de arte é algo que anima a arte e a crítica de arte, já há alguns séculos, segundo os ideais burgueses. Nessa perspectiva, a obra se materializa como uma incorporação de sua visão de mundo, seu horizonte. Portanto, para ser autor o sujeito deveria ter a liberdade de estar subordinado apenas à sua sinceridade artística, uma certa autenticidade que o elevaria à categoria de autor. Usualmente, o cinema é uma arte coletiva feita a partir de departamentos em separado, que devem confluir para a organicidade da obra. Ao deslocar, através da noção de autorias, o  foco da pessoa para a função, estamos pensando também em maneiras de descentralizar essa perspectiva, reconhecendo o lugar de diversos profissionais e sujeitos que compõem o fazer daquele filme. Autorias é um gesto político de tentar abarcar discussões que vêm sendo colocadas por este cinema mais atual, sobretudo, com a emergência de formas compartilhadas de realização, equipes menos hierarquizadas, formas de criação mais horizontais.


Desde o final da primeira década do século XXI, temos um cinema voltado para o cotidiano – modulado sob diversas possibilidades de escrita-leitura: documentais, ficcionais, performáticas, de família – um cinema celebrado e discutido sob o ponto de vista afetivo, cuja inscrição da pessoalidade não se centra em um sujeito em si, mas entre sujeitos, de forma periférica. Seria, aqui, a autoria uma forma de narrar em periferia. A ideia da Autorias, em 2019, leva a uma discussão das relações entre sujeitos, cinemas e espaços de enunciação e subjetividades. A inquietação mediada por dinâmicas entre estas instâncias é uma das linhas de força que deram forma a essa sessão.


Construímos as quatro sessões Autorias através de filmes que discutem o próprio cinema, os materiais de arquivo, as relações entre a pessoalidade e o cinema, assim como o interesse em investigar a linguagem audiovisual, em suas potencialidades expressivas e formas de reconstrução de narrativas. Entre um cinema que atravessa diversos momentos do audiovisual e trajetórias que se consagram no cinema mais recente, entre distintos olhares sobre a linguagem e os tempos do audiovisual e do Brasil, entre aplicativos de canto online, redes sociais e o retorno aos arabescos camelóides. Entre as distâncias e as proximidades dos filmes que compõem as sessões Autorias se coloca o uso do cinema para repensar narrativas e as relações interpessoais. nos interessa o diálogo através das lacunas, entre o eu e o Outro, entre o cinema e os sujeitos, entre a limitação das definições e o gesto de liberdade e recriação de si, de nós, do cinema. Mais do que apenas chamar pelo nome cada um dos filmes, nos interessa a experiência de vê-los em interação em uma sessão de cinema.