O que nos olha durante o caminho?

Por Scheilla Franca


Em termos de experiência de filmes realizados por estudante, temos uma concisa proposta de diálogo entre obras que exploram vertentes de linguagem e representação, que oscilam entre as prerrogativas clássicas e as urgências atuais, muitas vezes de forma irregular, mas com um desejo em comum. Este desejo pode ser traduzido em investigar o próprio encontro entre os realizadores e seus caminhos no fazer fílmico. Mas, ao longo da Caminhos, na MFL 2019, o que conseguimos ver, através do que nos olha, nas obras selecionadas? O que os filmes nos contam desta recente, profunda e ameaçada (pelas políticas de cortes de orçamento e desvalorização da universidade) relação de aprendizado entre sujeitos e o cinema?

Antes de ontem é o curta de Caio Franco, realizado como exercício da pós-graduação de documentário da FAAP, que se baseia em fotos redescobertas que saem do armário para ganhar a tela. O ecrã, inicialmente escuro, vai abrindo os contornos do olhar de Caio sobre ele mesmo, fazendo com que ele descubra-se em suas mudanças e continuidades, sobretudo no que se refere a sua identidade negra. A partir de uma conversa com sua avó, em pouco mais de seis minutos, o curta explora um universo familiar, sob os olhos da descoberta de si, mas de alguma maneira, pode ser lido como um olhar coletivo de nós, brasileiros, sobre nós mesmos, em nossas dinâmicas de descobertas ante a história de identificação e pertencimento a nossas matrizes silenciadas, violentadas, encobertas.

Cartuchos de Super Nintendo em Anéis de Saturno (2018), por sua vez, talvez seja o filme que mais tradicionalmente se relaciona com a estética jovem, normalmente associada às produções de estudante. É um caleidoscópio de possibilidades de leituras e sentidos, de diálogos com o contemporâneo, desde a linguagem até o discurso. O filme cearense, realizado por Leon Reis no curso de Audiovisual da Vila das Artes, traduz a juventude sobretudo através da irreverência buscada pelo flerte com a fantasia e o nonsense que aportam na experiência juvenil. Aspectos materializados, sobretudo, pelo frescor da fotografia e performance dos atores. O deleite com o gesto de experimentar o caminho pessoal da realização no cinema que sentimos com a experiência e fruição do filme, parece se combinar com o espírito do tempo, dialogar com as formas e tradições do cinema clássico e também com noções caras aos discursos e atos contemporâneos, como a questão da representatividade do protagonismo negro no cinema atual.

Vigia, assim como Cravo, Lírio e Rosa, ambos de 2018, são filmes que se filiam a uma tradição narrativa mais clássica, arejados e orientados pelo desejo de discutir questões de classe e vivências juvenis, assim como explorar possibilidades de encenação e narrativa. O primeiro, curta do Rio de Janeiro escrito e dirigido por João Victor Borges, no curso de cinema da UFF, acompanha o estreitamento dos laços entre um vigia negro e o jovem caixa 11, de cabelos descoloridos, que trabalha no mesmo estabelecimento. O vigia reproduz em sua postura profissional os preconceitos dos brancos, seus patrões, frente aos jovens negros que transitam pelo estabelecimento. Aos poucos, a relação entre os personagens ganha contornos próprios, mais pessoais e íntimos, numa rotina agora transmutada pelo afeto. Cravo, Lírio e Rosa, por sua vez, é um filme realizado por Maju de Paiva, também na UFF, que chamou a atenção da curadoria por ter uma narrativa construída a partir das escolhas interessantes e elaboradas de mise-en-scène, do ponto de vista de investigação da linguagem audiovisual, foco principal desta sessão. Além disso, a realizadora traz luz às questões do feminino no Brasil atual, cujo ato de lidar com o corpo é potencialmente atravessado por questões traumáticas de violências simbólicas e físicas, castradoras, e todas elas tão reais e assustadoras quanto o corpo juvenil que olha a protagonista – e a nós, espectadores – nos primeiros planos do filme.

A experiência de curadoria é, de alguma maneira, um processo de estudo, de investigação, de formação. Ela constitui a nós mesmos, enquanto curadores, de forma particular e enquanto curadoria – este corpo-coletivo. Os espaços de formação, os cursos, as universidades, são, além de encontros com a teoria e o fazer de imagens e sons, encontros com quem vai aprender junto a fazer cinema. Este afeto, que vem da partilha de aprendizagem, do momento de constituição de si (em diálogo ardente com o Outro que aprende e te ajuda a aprender), das errâncias através desta jornada é, sem dúvida, um dos fatores transformadores do cinema brasileiro contemporâneo na última década. É este caminho que celebramos aqui. Um caminho em risco, também, quando a Educação é posta em xeque pelas políticas de corte de investimento e desvalorização da Universidade pública e gratuita.