Biografemas, mergulho no tempo

Por Scheilla Franca


Por que o mergulho no tempo?

(CALYPSO, 2018)

     Para a vida, a arte, para a arte, a vida. Nada para estas dinâmicas de relações que se alimentam mutuamente. Este texto poderia começar com uma epígrafe que celebrasse o entrelaçamento das artes com a vida. Ou das artes, entre si, em diálogo para buscar a tradução do viver ou de um determinado sujeito a ser celebrado em suas horas no mundo. Poderia ainda com uma pintura ou fotografia que inspirasse a sétima arte a festejar o trabalho junto ao espaço biográfico, como coloca Philippe Lejeune, tendo em vista o amplo espectro de relações que perfuram as narrativas evocadas pelos filmes da sessão Biografemas. Mas aqui, revendo os filmes, foi o cinema - através de Calypso, filme homônimo que compõe esta sessão - que nos fez repensar estas linhas sobre o cinema em relação com as artes e as vidas, entre o mítico e o ordinário, por meio do questionamento, da indagação, que nos abre o olhar sobre o propósito dos gestos.  A provocação abre o texto e o desejo de investigação deste universo de cotidiano fabular que costura as sessões. É preciso mergulhar no tempo desse entrelugar, no tempo das poéticas fílmicas que abordaremos, ainda que rapidamente, para que seja possível entrever as conexões transbordantes daquelas artes que se permitem o contágio, a contaminação, o reverberar.

Uma vida pode ser escrita, lida e revisitada de muitas formas e a arte é uma entre as possibilidades de entrelaçar diversas perspectivas sobre uma existência, tornando-a mais e cheia de vida (ou de morte) através dos afetos mobilizados durante a produção e exibição da obra. Por meio de palavras, sons, cores, luz e sombras, linhas do fazer artístico, e aqui mais especificamente do cinema, a vida transborda e reconstrói a si mesma. A Sessão Biografemas da Mostra do Filme Livre em 2019, por meio de suas sete sessões, ensaia diversas formas de relação entre a arte e a existência. Sendo assim, o que podemos perceber através destes enlaces? Como eles mobilizam afetos? Como experimentar os fluxos de uma vida transformados em imagens em movimento e, por vida ser, mergulhar no devir que explode em poesia, arte e magia?

O chalé é uma ilha feita de vento se estrutura através de filmagens documentais em paisagens e cenários onde viveu e trabalhou o escritor paraense Dalcídio Jurandir. Ao invés de remeter-se à década de 1930, quando se passam as cartas escritas por Jurandir e retomadas pelo filme, Letícia Simões, realizadora do longa, decide filmar os lugares tal como estão na urgência do agora, no contemporâneo de sua própria vida. A geometria de relações entre a geografia do lugar, um Brasil ainda não muito imaginado, e a escola onde trabalhou o poeta ganha novos contornos justamente a partir do ruído entre a captura contemporânea das imagens dos cenários da vida de Jurandir (será que o estado das coisas mudou tanto assim?) e da leitura de suas cartas pela própria diretora, na narração em voz over.

Meu nome é Daniel, realizado de forma autobiográfica por Daniel Gonçalves, é uma jornada do realizador carioca rumo à construção do próprio olhar sobre o fazer cinematográfico e sobre si mesmo. O cineasta apresenta-se em sua realidade, sua família, seus desejos, seu cinema, seu nome. O que pode dizer um nome? Diálogo interessante pode ser feito com o filme Xará, longa baiano de Matheus Vianna, que talvez num espectro distinto, em busca de pessoas que partilham o nome próprio que também é o seu, explora possibilidades de encontros através do nome, das tecnologias digitais e do cinema.

Onde Está João Vinagre? e Madrigal partem ambos da experiência da perda como constituição de sua existência enquanto obra, de alguma forma. Mobilizados pelo luto, os filmes constituem formas de diálogo consigo mesmos, numa arqueologia interior sobre a relação instaurada entre aqueles que se foram e aqueles que sofrem a ausência-presença dos que partiram. Em Onde está João Vinagre?, Mariana Costa estabelece esta relação, a princípio, através de uma caixa deixada por seu pai, homem que ela passa a buscar através da fabulação de suas memórias. Madrigal, por sua vez, traz o poeta falecido Tico e seu amigo Renan Rovida, em um filme dirigido por Adriana Barbosa e Bruno Melo Castanho. O filme nasce a partir, principalmente, das relações entre o cinema e a poesia de Tico no curta-metragem Ferroada, que foi exibido e ganhou destaque em diversos festivais em 2016, inclusive na MFL.

Darel e Raskolnikov e Inaudito, por sua vez, formam uma sessão que, podemos pensar, traz, de fato, a arte para o primeiro plano dentro da relação entre as existências e o cinema. Darel e Raskolnikov costura o diálogo entre o diretor Allan Ribeiro e Darel, artista plástico, que trabalha em um retrato, enquanto Allan filma a tela em branco ser preenchida por suas cores e traços. O cinema vai, aos poucos, sendo preenchido pela pintura, por Allan e por Darel. O filme remete a outra obra, o longa que fizeram juntos, exibido e premiado em diversos festivais brasileiros, Mais do que eu possa me reconhecer (2015). Com Inaudito temos um longa paulista dirigido por Gregório Gananian sobre o músico Lanny Gordin. O filme se inicia com um cartela, de forma mais tradicional, apresentando o músico e seu lugar na década de 1960 para a música brasileira para, então, se abrir ao processo de composição e criação de Gordin. De fato, a banda sonora do filme é de um trabalho primoroso, poeticamente falando. Entre sombras e ruídos de vento que ecoam e ressoam no espectador, somos apresentados ao personagem principal pela dança das sombras, da fotografia, e pela beleza do trabalho sonoro. É um encontro entre cinema e música, em que ambos doam de si para a existência do filme.

Calypso, de Rodrigo Lima e Lucas Parente, por sua vez, trabalha de forma alegórica a relação entre as histórias dos espaços, as formas de arte e o exílio. A fogueira à beira da Baía de Guanabara é testemunha dos ecos de repetição e transformação dos corpos em cena, os corpos de pedra e sal, sejam humanos, como seus performáticos personagens, seja a paisagem: a terra, as pedras gastas de mar, o mar em si, a sua exploração por meio de usinas e plataformas, construções humanas, como os barco que nos levam-trazem de volta ao final da sessão. Um filme que costura suas referências e a trajetória de seus personagens junto aos seus destinos, paisagens grandiosas e espelhadas, na palma de suas mãos, na sola dos seus pés. Performance, teatro, música, fotografia, literatura, cinema, pintura: as artes são arquivo e inspiração para as performances dos atores, para os corpos que ecoam outros corpos, para os espaços que reverberam outros espaços. Diálogo entre o universal e a terra sob nossos pés. Entre o mundano e o mítico, o colapso entre arquivo e filmagem, entre ontem, amanhã e antes de ontem, entre cinema e terra, cinema e teatro, cinema e vida, cinema e literatura, cinema e cinema. E fica uma das muitas perguntas vivendo em nós: “Por que o mergulho no tempo? Como as pedras na terra… quem sou eu, quem é Calypso?”. Quais os limites entre representação e vida? Como se delimitam as fronteiras entre pessoa e personagem?

Em Hilda Hilst Pede Contato temos a provocação da vida e poesia de Hilda Hilst, poeta que, apesar de ter falecido em 2004, segue intensamente viva em sua obra. Em um documentário que mistura encenação com recursos mais tradicionalmente associados ao gênero, como os depoimentos, temos uma tentativa de contato e aproximação com Hilda. Entrelaçados estamos às experiências nas quais Hilda busca contato com os seus amigos falecidos do universo da literatura e da arte. As fitas sonoras de gravador eram seus dispositivos de registro. Aqui é o cinema que busca o contato com Hilda, em sua poesia e sua vida, com as formas de preencher os vazios e buracos, ou como ela mesma coloca em seus poemas, de tocar as dobras, o infinito absurdo do cotidiano da vida e da arte desta mulher que, já do outro lado da existência, volta à Casa do Sol, rodeada de amigos, e parece inquirir o quão intensamente nós vivemos.

Cada um à sua maneira, os filmes tecem, portanto, um convite ao diálogo entre as formas de arte e as modalidades de existência. Entrelaçando gêneros, esgarçando fronteiras em torno da própria relação entre o que existe no mundo e o mundo da representação, por meio da estética e da experiência do cinema, da literatura, da performance, da música. O cotidiano pede a restituição e o contato da vida com a arte, do mergulho no tempo, da dúvida, do esgarçamento de margens. Mas estes diálogos só se completam em nós, quando respondemos àqueles que, por meio da reflexão em torno da vida, dos espaços e dos artistas, solicitam nossa presença, desejam nosso corpo-espectador. São muitos os convites para fabular e tecer-se entre seus próprios fios de vida, referências, enlaces. Há o silêncio e o grito e uma gama de gradações entre estes espectros na experiência de existir. Eis um dos motivos do tempo. E do mergulho.


Suporte bibliográfico


LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico: de Rousseau à Internet. Editora UFMG, 2014.