Longas Livres: Um cinema à beira da fogueira

Por Scheilla Franca e Diego Franco


“Pela liberdade da arte. A arte precisa de Liberdade. De que outra forma ela pode libertar as pessoas?”

(O desespero de Veronika Voss, Rainer Werner Fassbinder, 1982)


O exercício do longa-metragem dentro do fazer artístico pode ser compreendido como um dos mais desafiadores quando pensamos na liberdade de criação no cinema. Sobretudo no recente cenário político brasileiro, com o audiovisual sendo cercado pelas medidas que minguam deliberadamente suas formas de fomento, punindo-o por erguer sua voz, ou melhor, por ser forma de resistência de muitas vozes antes silenciadas no Brasil. É preciso pensar o exercício e o lugar do longa livre, em todas as suas controvérsias e contradições, por todas as questões de logística, produção e realização. Ainda que fazer filmes seja um ato cada dia mais acessível – tecnológica e economicamente –, fazer uma obra com mais de setenta minutos é, normalmente, um grande desafio à liberdade de criação, dada a relação entre o coletivo e a expressão pessoal, além do maior custo de produção, formas mais institucionalizadas de financiamento e maior número de pessoas na equipe. Não me parece casual que mais de uma vez o cinema tenha sido colocado à beira da fogueira, à noite, na neblina, no vazio das ruas que ecoam o sentimento de desamparo em que muitas vezes nos vemos imersos. Do que nos falam estes filmes sobre os Brasis contemporâneos?  

A sessão Longas Livres é destinada a ser espaço de exibição de longas-metragens mais radicais, do ponto de vista da linguagem e experiência estética proposta por seus realizadores. É também fonte incessante de reflexão em torno da ideia de liberdade na arte e, de forma mais específica, no cinema, mas também, de uma maneira mais ampla, das formas que a liberdade ainda pode tomar no cenário brasileiro atual.

Afinal, do que nos fala este cinema? Como lidamos com as (im)possibilidades do dizer e das relações entre eu-Outro?

Como fazer longas livres dentro de um Brasil cujas fronteiras tornaram-se mais e mais e mais impermeáveis? Como fazer cinema, que é um

ato coletivo em si, diante destas condições? Como o cinema consegue encontrar recursos expressivos dentro deste cenário? As questões

são muitas e não há, claro, pretensão de respondê-las. São quase um direito ao grito. O  medo do outro, instaurado pela proliferação

de discursos ameaçadores, sobretudo a partir do caos da política nacional atual, assim como o silenciamento dos desejos e afetos na

sociedade contemporânea, põem em cheque a urgência em torno da restauração da potência criativa, bem como da transmutação do que

somos através dos mecanismos da imaginação e dos sonhos. Fazer um longa livre é sonhar junto. O cinema tem corpo de sonho, à luz de uma

lógica de produção mais complexa e dependente de diversos fatores materiais e concretos, o que torna a experiência dos longas livres ainda

mais inquietante.


Neste sentido, podemos dizer que Os sonâmbulos, de Tiago Mata Machado gravita em torno de “um pequeno grupo de demolidores de mundo” que erra, tateia aquilo que pensamos como


“eterna noite de um universo desfeito e escancarado, ao invés de habitarem os espaços iluminados pelo espetáculo e sucumbirem à demanda agressiva por estados de felicidade constantes. Estes corpos inquietos integram uma sociedade clandestina, marginal e secreta, narrada pelo filme de modo um tanto peculiar para a estética tradicional do cinema nacional, filiada aos moldes do realismo hollywoodiano e relacionada ao entretenimento, ao chamado cinema comercial. [...] O impacto estético da disjunção entre a voz e as imagens na penumbra cria uma onda de sensibilidade e poesia melancólica que se arrasta durante todo o filme e causa um estranho envolvimento. Tal como as cenas fragilmente iluminadas pelas velas, o filme cria pequenas ilhas de luz em torno de situações fragmentadas. De resto, em volta das luzes tremeluzentes, temos apenas a sensação do escuro, da não certeza, da vertigem. As colagens nas paredes foram feitas a partir de manchetes de jornais selecionadas pelo personagem Ruiz que, ao libertar as imagens da informação que as davam significado, extraí delas outros sentidos a partir da montagem com outras imagens e outras palavras. Nesse momento, Machado induz o espectador a desconfiar das imagens da mídia. (DIEGO FRANCO, 2019)


Como pensamos no excerto acima colocado, a noite é uma figura, uma paisagem que emana inspirada pelo contexto histórico, impregnando metaforicamente o filme e sua narrativa, sua experiência. A presença do contexto político brasileiro e da mídia adensa esta dinâmica entre arte e realidade. O cinema sofre impactos diretos destas políticas. Sofre quando seus sujeitos estão à luz do pensar e penar da noite brasileira, que recai sobre todos. Sofre quando o cinema ainda é fortemente dependente de mecanismos de fomento estatal. É o risco. É a noite. É o cinema à beira da fogueira, como vemos em Tremor Iê.


Assim como Os Sonâmbulos, Tremor Iê é impregnado de política poética dos tempos à meia luz, o que parece trazer

força e liberdade aos discursos e corpos que desafiam a pluralidade de formas de vida na sociedade brasileira mais

atual. À beira da fogueira, entre amigas e companheiras de vida e luta - porque os dias mostram não haver espaço para

pensarmos a vida dissociada da luta, estas que são as duas partes de uma mesma poesia -, circulam e crepitam, no

olhar das protagonistas, histórias sobre a violência gratuita  que atinge os corpos femininos – em seus desejos, espaços e

expectativas. Tremor Iê, filme cearense realizado por Elena Meirelles e Lívia de Paiva, é a força das histórias e corpos que

resistem à meia luz e que, juntas, em roda, fazem circular a luz e conseguem fazer vibrar a tela de cinema.  Um filme

sem meias palavras, sobre as nossas interdições e interrupções diárias. Os elementos ficcionais – a narrativa que beira o

fantástico quando da representação dos policiais e do clima de caos e perseguição daqueles corpos e desejos no Brasil –

não poderiam ser mais reais. Talvez os nomes que surgem em círculo nos créditos finais, das atrizes e também de mulheres

fortes e silenciadas da história nacional, sejam uma aparição que inquieta sobre a forma de existência - ou resistência? -

dessa obra que faz do afeto uma força de luta. Um cinema de mulheres em roda, um cinema à beira da fogueira.

*"Tremor Iê" foi eleito o melhor Longa Livre deste ano, com júri da Revista Beira.


Ao abordar as relações, distâncias e proximidades entre cinema e política, Jacques Rancière intitula um de seus artigos de “Conversas em torno da fogueira: Straub e alguns outros”, abordando a relação entre as formas do cinema, sua materialidade e historicidade, e suas implicações políticas e estéticas. Curioso é que, não apenas em Tremor Iê, mas em diversos outros filmes presentes na MFL este ano, temos fortemente marcadas cenas em torno da fogueira (como no longa Calypso - ver Biografemas), assim como a aparição da noite, da neblina e a constante suspensão provocada pelo silêncio, o que juntos compõem um inquietante conjunto de recursos expressivos escolhidos para dar corpo aos discursos poéticos dos realizadores. Do que falam estas escolhas estéticas sobre o Brasil contemporâneo? O que ouvimos à beira da fogueira, à noite, na neblina?


O silêncio e o que está “entre” é igualmente um convite partilhado por Não sei qual cidade se passa aos olhos dele. Realizado por João Mendonça e Thaís Inácio, o filme propõe uma experiência em torno das relações de pertencimento entre sujeitos e espaços, como enunciam seus primeiros versos escritos silenciosamente na tela, que atravessam o ecrã até chegar ao título e seguem, com uma câmera à flor da pele e em tons de cinza, “entre o branco e o preto, entre a vida e a morte, entre uma geração e outra”, como a obra é apresentada. Seus personagens são corpos com histórias e corpos da história, parte deles moradores do Quilombo Vila Nova Moradores de São Gonçalo do Rio Das Pedras.


Possivelmente um dos filmes mais radicais que recebemos este ano, em termos de linguagem cinematográfica, Eles vieram de outro espaço é o longa gaúcho do realizador estreante Leonardo Michelon. O filme estabelece uma outra vertente de trabalho em torno da relação entre o real e a fantasia. Contemplativo, a cidade é capturada em suas imagens mais ordinárias para que, através do trabalho de intervenção sobre sua superfície, venha a emergir o mais humano delírio. Realizado sem apoio de editais ou financiamento, de baixo orçamento, é um desafio ao espectador, talvez tão grande quanto foi o seu desafio de produção e existência. O som trabalhado de forma minimalista e a ousadia na montagem, são aspectos que auxiliam a desenhar o espaço no cinema, aberto ao experimento da linguagem. Um cinema que vem de um outro espaço – a linguagem do delírio -, que brota a partir do nosso cotidiano. Um cinema entre espaços de subjetivação e dessubjetivação, entre o humano e o não-humano.


Renato Sircilli parte da proposta de filmar um amigo durante cerca de quatro anos para observar o que pode emergir, no cinema, desta relação entre encenação e vida cotidiana. Fôlego é o resultado desta experiência entre janelas, entre universos, afetos e prédios em implosão. Irresistível convite a pensar o que de fato vemos no plano - e o que nos olha - quando uma imagem ocupa a tela do cinema. A artificialidade da construção das cenas e dos discursos que parecem, inicialmente, os mais orgânicos, como quando surgem os depoimentos muito sensíveis sobre a perda da mãe e a escolha de uma tatuagem em sua homenagem, assim como as formas de superação do luto, são tensionados a partir da montagem que torna evidente o artifício. No entanto, a dor não é menos real porque incorporada no cinema, entre telas e áudios de whatsapp.


O que vemos quando a face destes afetos nos é revelada à luz da fogueira? O que estas imagens revelam em nós e sobre nós? Ao lançarem-se no impossível, o impossível do Real, do cinema, da arte e da vida no Brasil, as experiências fílmicas selecionadas para compor esta sessão nos lançam um olhar desafiador para o enfrentamento dos nossos condomínios, silêncios, margens, corpos, cidades, lutos e liberdade. Fazer um longa em maior liberdade não é algo dado, nos lembram estes filmes. A liberdade não é dada, é conquistada, construída. Nunca esqueçamos disso, é o que eles parecem nos dizer, cada um à sua maneira. É o que nos diz o diálogo do filme de Fassbinder, com o qual abrimos este texto, em epígrafe. É o risco, de verdade. É o risco do real em sua face mais cruel: a do silêncio. Mas há estratégias de resistência. Estamos juntos, à beira da fogueira, mas estamos juntos. É noite, mas estamos juntos.


Referências


FRANCO, Diego. Das impossibilidades de imaginar o porvir. 2019. Disponível em: https://medium.com/revista-beira/margensdetiradentes-das-im-possibilidades-de-imaginar-o-porvir-f0f40fdc797a Acesso em: março/2019.


O DESESPERO DE VERONIKA VOSS. Realizado por Rainer W. Fassbinder, Alemanha, 1982.