Entre a curadoria e a exibição: notas acerca da experiência

Por Diego Franco


A impossibilidade de assistir aos filmes na tela do cinema, na ordem que se deseja programá-los, faz surpresa dos efeitos provocados pela sessão tanto para o público quanto para a própria curadoria. O segundo panorama desenhado pela Mostra do Filme Livre é estruturado por quatro filmes tão semelhantes entre si que provocam, juntos, uma atmosfera homogeneizante na sessão. Isso poderia ser visto como algo positivo, mas ouso apontar como uma escolha controversa, talvez frágil. Afinal, o espaço curatorial também é lugar de aprendizagem e experimentação. Nessa sessão, assistimos ondulações que deslizam entre o experimental e o ensaístico e criam arquiteturas que fabulam o passado e o futuro do mundo,  atravessados pela flecha, nem sempre certeira mas certamente perigosa, das imagens em movimento.

O primeiro filme, Princesa morta do Jacuí, realizado por Marcella Ilha Bordin, costura seu distópico argumento sobre um passado traumático como quem escreve um bilhete para o futuro, guarda em uma garrafa e a lança ao mar. A partir de um mundo  -  não tão  -  imaginário, a diretora convoca a reflexão sobre o presente e, especialmente, sobre o cinema e sua capacidade de dialogar com os problemas sociais sem a necessidade de se fazer panfletário, sobretudo ressaltando a força que possuem as imagens em movimento para lidar com as camadas invisíveis do real, com a magia e a fantasia dos sonhos que nos atravessam. Bordin constrói uma história sobre as ruínas e seus destroços românticos, mas também sobre o delírio e a paixão, arquitetando um verdadeiro ouroboros, no qual seu protagonista, o arqueólogo Margot, morde sua própria cauda morta.

A estrutura do filme é atravessada por uma voz over onisciente e feminina. É ela quem guia o espectador pelo astuto argumento da diretora, livremente inspirado n’A Invenção de Morel, romance escrito por Adolfo Bioy Casares. Ao plasmar camadas de sentido nas imagens, a voz redimensiona por meio do timbre suave e marcante com o qual lê o texto que alinhava as imagens. A costura entre a narração, o som dos pássaros e a sutileza da banda sonora intensifica a sedução das imagens e evoca um certo encantamento, um fascínio que captura o olhar e talvez possa ser associado, em parte, ao prazer nostálgico de experimentar as pequenas ranhuras provocadas pelo tempo  - ou induzidas  -  na película.

Antes do lembrar, realizado por Luciana Mazeto e Vinícius Lopes, surge tal como seu primeiro plano, como raios de sol adentrando uma caverna escura: a caverna dos tempos imemoráveis. Narrado também por uma voz over feminina, tateamos o som de perguntas ainda - e quem sabe para sempre - impossíveis de serem respondidas, mas cuja formulação parece mais do que necessária, seja para continuarmos vivos, seja para excitar a poesia das sombras que abraçam os dias ensolarados: “Qual é a nossa mais antiga criação? Fantasmas? O medo? A opressão? O Mundo? Qual é a sua memória mais antiga? Você poderia contá-la para nós? (...) Como o mundo foi criado? Como o seu mundo surgiu? E a humanidade, como surgiu? E você? Onde você nasce? Onde você nasceu? Qual o mundo que você vem criando? Ele está pronto? É só seu? Quais as criaturas que habitam nele? Que gosto tem? Quais são as plantas que você colhe? Com que cores você o pintou? Você está sozinha nele ou inventou um amigo? É um pântano? É uma cidade? É uma floresta? Já foi tudo isso?”

Depois de abrir uma veia de sensibilidade no espectador através dessas questões imensas, um corte seco transporta o filme para o interior da casa de uma indígena, mas também para o interior dela mesma, pois acompanhamos a trajetória de um de seus sonhos. As imagens que cercam a narração, também em voz over, são misteriosas como o sonho que aos poucos é revelado. A performance da voz carrega a potência do que não é treinado, de um texto gravado quase que por acaso, com a força e a irregularidade da espontaneidade. O contraste entre essas imagens e as próximas, nítidos planos abertos de paisagens naturais, talvez de Santa Catarina, ressalta o caráter ensaístico de uma montagem horizontal, não preocupada com a relação de duração ou de causa e efeito entre o plano anterior e aquele que o segue e sim com aquilo que é narrado. O texto é o recurso poético definidor da maneira de montar as imagens.

Redescobrimos que, na região central do Rio Grande do Sul, na escarpa do planalto, existe um dos registros mais antigos feitos pelos homens. As perguntas continuam: quem habitava esse espaço? A imensidão dos planos abertos e a poeticidade científica do texto revela o evento mais severo ocorrido no planeta, uma extinção em massa durante o período Permiano-Triássico, há cerca de 251 milhões de anos, que resultou na morte de 95% de todas as espécies marinhas e de 70% das espécies sobre continentes. A grande agonia vivida pelos seres daquela época perdida no abismo do tempo lança um lampejo sobre a agonia que habita nosso contemporâneo. Estaríamos caminhando para um futuro assim tão desastroso?

De certo modo, Antes do lembrar provoca a sensação de ser deveras compacto para tudo que explora. Uma pílula, um rápido gesto de uma coreografia muito densa, um curta que - por mais belo e potente que seja, como o é - talvez, explorasse constelações de forma mais bem orientada se tivesse dado a si mesmo uma outra duração, possivelmente aquele do média-metragem - mesmo arriscando cair no limbo dos média-metragens, sem encontrar tão facilmente lugar na programação dos festivais. Se deixamos rastros ao nos movimentarmos, “pedaços físicos e de imaginação”, como revela liricamente o texto narrado, me pergunto o que este filme deixou em mim, ao ser exibido. Será que o desejo pela imensidão daquilo que não se sabe com exatidão? Ou a exaltação da narração como gesto que recria mundos e reposiciona sentidos? Em meio à narração ininterrupta, existe um momento de respiro, plasticidade pura e visual. Um projeto de buraco negro emulsificado na película de nitrato. É o prelúdio do nascimento do homem, porque Antes do lembrar conta as histórias que um dia nosso mundo sonhou sobre si mesmo. O filme constrói um complexo processo de fabulação, de criação sobre algo que não se viveu, mas que pode ser alcançado pelo exercício da imaginação. Ao mesmo tempo, o filme joga com os processos de ativa criação de mundos na contemporaneidade, como quando utiliza fotografias realizadas durante o projeto “Ore Reko Regua”, resultado de seis oficinas de fotografia, ministradas pelo assistente de direção Eduardo Piotroski, junto ao mestrando em antropologia Eduardo Schaan. Apresentando seus costumes, brincadeiras e rituais através da fotografia, os indígenas reconfiguram seus mitos sob a luz de novos meios expressivos.

O próximo filme da sessão, Mondo LLXV, realizado por Rei Souza, aposta em uma narrativa visual e sonora que reinventa o mundo a partir de antigas fotografias,  selecionadas em revistas da National Geographic. A montagem e sincronia sonora abre os arquivos compilados a outras possibilidades discursivas, revelando que o arquivo pode dizer tudo e, ao mesmo tempo, o seu contrário. De modo linear, o filme fabula sobre histórias do mundo. Existe algo nos gestos de reenquadramentos que o realizador faz das imagens que transpira o sublime. O que enfraquece, em alguma medida, a experiência do filme em si, talvez seja não conseguir performar a mesma intensidade, ousadia e liberdade, em relação à experimentação com a banda sonora, trabalhada com mais timidez por Souza.

Vazios habitados, realizado pelo Duo Strangloscope, Felipe Vernizzi e Rodrigo Ramos, fecha a sessão em um hipnótico jogo de movimentos e sons que elevam as atmosferas cuidadosamente adensadas pelos três primeiros filmes. O filme nos coloca como protagonistas, tal como se nossos olhos fossem a objetiva da câmera, e assim desbravamos os espaços, imersos em um desenho sonoro que mescla ruídos captados in loco pelos artistas e realizadores, assim como outros realizados na pós-produção, o que cria uma inebriante sinfonia da mata. O encontro com a paisagem da Chapada da Diamantina reatualiza um arsenal imagético e sonoro do que aquela paisagem pode ser enquanto experiência sensorial.

No imenso tempo da terra, surge os tempos do homem, tal como uma pequena estrela que brilha de muito longe, talvez já morta. Sobreviventes de um caos financiado pelo capitalismo transnacional, são como vagalumes que ora surgem, ora desaparecem. Mas marcam sua presença fugidia e resistem, apesar de tudo. O mundo se desfaz e se recria a cada novo filme, a cada nova história. Talvez as imagens que Margot assiste dentro do objeto de luz, no filme de Bordin, as imagens de uma história passada, sejam também as imagens de uma história porvir. Uma pergunta costura os filmes desse panorama:   estaríamos presos em um entre todos os outros mundos possíveis de serem vividos? Se sim, como podemos romper o véu daquilo que é dado, como permitir esvaziar os pressupostos e as profecias para ouvir e habitar o vazio, nos lançar no abismo e enchê-lo com as águas das nossas chuvas interiores?



Suporte bibliográfico:

HOFFMAN, Hillel J. The Permian extinction: when life nearly came to an end. https://www.nationalgeographic.com/science/prehistoric-world/permian-extinction/