O SUPER8 É FOGO! O CINEMA INCENDIÁRIO DE GENETON MORAES NETO

por Chico Serra

Em dezembro de 1968, logo após o governo militar decretar o AI 5, dando plenos poderes ao Estado para perseguir e eliminar pessoas e organizações contrárias ao regime, o editorial do Jornal do Brasil solta uma nota tímida, aparentemente ingênua, que o leitor incauto poderia interpretar como uma ordinária previsão meteorológica: “situação sufocante e ar irrespirável” foram algumas das palavras do jornalista Alberto Dines, então responsável pelo editorial do periódico, como forma de denúncia da censura institucional que passava a vigorar, incluindo a presença ostensiva de funcionários do governo militar dentro das redações dos jornais, evitando que qualquer resquício de subversão em forma de notícia (ao menos no rigor cartesiano dos censores) fosse divulgada na imprensa. “Ontem foi o dia dos cegos”, foi outra nota do JB na mesma edição, publicada após o ato institucional que levou a uma radicalização extrema tanto da esquerda como da direita nas ideias como nas ações no campo político. 

O jornalismo não poderia fazer nada além do uso dessas estratégias de frestas (refiro-me aos jornalistas e veículos de comunicação que se posicionaram contrários ao “golpe dentro do golpe”, pois boa parte dos donos dos grandes jornais vestiram a camisa dos militares e saíram em marcha de mãos dadas “com a família e com deus”). O jornalismo estava sufocado, mas o cinema não. Ao menos os jovens cabeludos, “filhos da nova classe média” que “curavam o ócio” com seus filmecos subversivos a partir do início dos anos 70, puderam se expressar livremente - dentro das limitações técnicas e econômicas de cada um- para contestar e transformar ao menos simbolicamente, o estado de coisas que se encontravam, trazendo à tona a necessidade orgânica de promover uma contestação e/ou desbunde como formas de se rebelar poeticamente contra a repressão que dava carta branca à  censura e aos torturadores.

Por meio do acesso à câmeras portáteis e sonoras de Super8, diversos cineastas amadores, jornalistas, ativistas, poetas e artistas plásticos do norte ao sul do país como Torquato Neto, Edgard Navarro, Jomard Muniz de Brito, Ivan Cardoso, Helio Oiticica, Lygia Pape, Jairo Ferreira, Jorge Mourão, entre muitos outros, iniciam uma diversidade de curtas radicalmente e intencionalmente realizados fora dos padrões hollywoodianos ou televisivos, pensados e realizados dentro de uma estética precária tanto na técnica quanto na produção, fugindo a sintaxe gramatical do cinema convencional, já desgastado pelo Cinema Novo, com raras exceções. A partir daí, os laboratórios da Kodak e o circuito cultural alternativo revelam toda uma cena “udigrudi” em expansão, traduzida na produção superoitista que se aproveitava também da facilidade das projeções em Super8, que poderiam ser realizadas em lugares alternativos, escapando assim da censura cultural e institucional vigentes.

O pernambucano Geneton Moraes Neto, que vem da experiência como jornalista no Diário de Pernambuco, produz seus curtas em Super8 exatamente neste período de trevas, entre 1973 e 1983. Seus filmes são permeados por uma ironia e um certo pessimismo, além de um tom incendiário, especialmente nos textos (a maioria escrito por ele ou por Jomard Muniz de Brito, o qual também colabora como ator e narrador nos filmes A Flor de Lácio é Vadia (1978) e O Coração do Cinema (1983). São filmes marcados por uma profunda indignação, um libelo contra a manipulação da história e das imagens ditas “oficiais”, e contra os poderes políticos instituídos no pais “O Brasil da Rede Globo não confere com o original”, grita Jomard Muniz de Brito em O Coração do Cinema,(ironicamente Geneton vai trabalhar na Globo durante entre os anos 1980 até início dos anos 2000, onde acaba se tornando mais conhecido por seu jornalismo inquieto e provocativo).

Em Fabulário Tropical (1979 ), anunciado como primeiro filme Super8 trilíngue do Brasil, a narradora e guia de um inusitado e fictício passeio turístico pelas ruínas históricas de Recife conta-nos em off o episódio do fuzilamento de Frei Caneca, “executado por participar de um plano republicano e separatista”. E conclui, sobre as imagens em ruínas do muro onde ocorreu sua execução: “vejam, ó senhores ouvintes, o carrasco se recusa a cumprir a sentença do enforcamento, e Frei Caneca foi fuzilado logo depois por um batalhão. O Brasil, como estão vendo, é o país do perdão, nem que seja por alguns minutos, de 150 em 150 anos”.

Esses Onze Aí (1978) codirigido por Paulo Cunha, é seu filme que mais se aproxima de uma linguagem de documentário mais formal, mas ainda assim muito longe do reducionismo jornalístico, e merece atenção por se auto definir como um “manifesto a favor do futebol”.Dedicado a Pelé, o filme propõe-se a uma visão dialética da paixão popular pelo futebol, contestando a narrativa da esquerda ortodoxa que historicamente colocava o esporte como elemento de alienação. Geneton e Cunha propõem então uma antropofagização do futebol oficial dos grandes clubes pelo futebol popular de várzea, e subvertendo a visão do esporte como elemento essencialmente masculino,optam por escalar Juliana Cuentro como apresentadora e entrevistadora. O Coração do Cinema (1983), que também conta com a colaboração de Paulo Cunha na direção, foi realizado originalmente em 16mm, mas circulou numa cópia em Super8, é baseado livremente em roteiro de Maiakovski, e talvez seja o mais pessimista de seus filmes, ao lado de Loja dos Trapos do Coração (1982) um inventário das ideias de Glauber que circularam no imaginário do cinema brasileiro e no programa Abertura na TV Tupi no final dos anos 70, além de um ensaio de filme Godardiano, bem ao estilo de sua fase militante no Grupo Dziga Vertov. Mas é Funeral para a Década de Brancas Nuvens (1979), que me parece ser o seu trabalho mais visceral, uma espécie de manifesto audiovisual contra os anos de chumbo: “Eu vos anuncio o funeral da década do silêncio. Mil novecentos e setenta e nada” assim Jomard Muniz de Brito anuncia o texto de abertura. “Boa noite, senhores tristes do poder, boa noite, patrulhas de gás lacrimogênio, boa noite, batalhões de choque, boa noite, durma em paz, Tio Sam”. Numa bricolagem a la Santiago Alvarez, Geneton faz uma junção de imagens de Lennon e Hendrix com Roberto Carlos, Marighela, Papa João XXIII, Nixon, assassinato de JFK com tropas de choques nas ruas do Brasil, e enquanto a voz anuncia que “os palcos de Woodstock são agora um retrato na parede” o ator Lula Falcão escreve com um spray num muro branco: “A saudade é uma jaula”. Ao mesmo tempo que parece enunciar uma suposta vitória das forças de repressão (“toquem as trombetas da ordem, vocês conseguiram por enquanto”) e criticar o saudosismo dos anos 60, Geneton não se rende...e finaliza seu texto/locução afirmando que “Nós não estamos plenamente mortos”, e que ”é impossível evitar o futuro!”. Tomara que ele esteja certo.