MARGENS DA LIBERDADE

por Diego Franco

A Mostra do Filme Livre sugere com seu nome, de início, questões filosóficas, tais como: o que é um filme livre? Como encontrar a liberdade dentro de um dispositivo com suas próprias limitações? Qual é a essência da liberdade? Ao mesmo tempo, seu lugar em meio às mostras de cinema do país provoca uma certa inquietação que nos faz pensar sobre as estruturas ensimesmadas dos festivais e mostras nacionais. Patrocinada desde sua primeira edição pelo Centro Cultural Banco do Brasil, a MFL acontece em um espaço que fomenta diversas manifestações artísticas, por onde transitam inúmeras pessoas diariamente. Assim, ela consegue atingir um público amplo e diverso, geralmente pessoas que não estão sensibilizadas com abordagens estéticas e narrativas não tão próximas àquelas desenvolvidas pela televisão ou a indústria cinematográfica. De modo que me parece que seu lugar no cenário nacional é também o de sensibilização do olhar.

A concepção existencialista posiciona a liberdade com sendo a condição intransponível do homem, por isso, a frase célebre de Sartre nos diz que somos condenados a ser livres. Essa perspectiva interpreta o humano como estruturado pelo peso da liberdade, sendo ela aquilo que nos funda enquanto seres humanos, fazendo de nós um campo de possibilidades infinitas. Sofremos esta doença sem cura, a perspectiva do alcance da liberdade plena. No entanto, devido ao fato de nascermos imersos em estruturas já definidas - sociais, políticas, comportamentais, estéticas -, por vezes este horizonte parece quase uma miragem, um sonho: ela, a liberdade, existe, conseguimos senti-la, mas paradoxalmente a liberdade parece não resistir a um olhar mais detido, e, quase sempre se esvai, devido ao fato de não conseguirmos efetivá-la em nossa realidade cotidiana, quando o despertador toca, quando a casa é uma prisão, quando os afetos não são reconhecidos, respeitados e legitimados, quando o trabalho é sinônimo de exploração e venda de vida.

Os códigos de existência estão dados desde quando somos imaginados e enunciados, antes de sermos corpo, apenas verbo, e através deles costuramos nosso entendimento sobre o mundo e articulamos nossas ações. No entanto, seria possível romper o véu da tradição e fraturar o conjunto de fatos dados do mundo em que nos inserimos? De que forma podemos nos inscrever em liberdade no mundo? Isso me faz pensar que talvez a liberdade seja semelhante ao lugar de uma queda, desta que consequentemente produz fraturas. Uma queda em si, uma queda impulsionada, dentre outras questões, pelos próprios abismos da relação entre as expectativas sobre nós (que pré-desenhariam nossos lugares no mundo) e os desejos em nós (que podem nos fazer aceitá-los ou tensioná-los). Alguns ossos, por vezes, terminam por partir neste tipo de situação. No convite à queda, existe também o morno tatear pelo escuro de nós mesmos, dentro do oceano profundo que existe em nossos corações. Porque é preciso se imbuir de afeto para explorar verdadeiramente a liberdade.

Ao pensar o exercício da liberdade no campo artístico, inevitavelmente ouço o grito silencioso que envolveu o gesto de Marcel Duchamp, assim como toda reestruturação de códigos que sua provocativa liberdade instaurou. Mas quando falamos sobre fazer cinema, como é possível exercer a liberdade que nos constitui? Se o cinema está aberto a um grande número de possibilidades estéticas e narrativas, quando uma cineasta assume alguma entre estas possibilidades é possível dizer que ela projeta uma maneira de partilhar formas sensíveis que dialogam com a maneira com a qual ela projeta a si mesmo no mundo? Em parte reflexo do estado de coisas do presente, do famoso e incompreensível "espírito da época", as escolhas tomadas transformam-se em fórmulas que são absorvidas por outros realizadores e desgastam-se rapidamente. Visto por esta perspectiva, a liberdade precisaria então de uma nova onda, uma erupção outra que lançasse a maneira de se pensar e fazer cinema para outro lugar ou, antes, fizesse estremecer as bases que o sustenta. Não quero dizer com isso que a liberdade seja sinônimo de novidade ou que a repetição seja necessariamente negativa. Deleuze trouxe à luz do dia que das repetições é possível extrair pequenas diferenças, variantes e modificações, de modo que a repetição carrega em si uma potência própria, potência que seria aquela também do inconsciente, da linguagem e da arte. Reconhecimento e transformação.

Em suma: parece, portanto, fundamental, para a questão da liberdade, pensar a forma cinematográfica para além da simples aplicação técnica eficaz dos pressupostos estéticos das gramáticas, da indústria cinematográfica, da televisão, do cinema de arte, ou de qualquer outro box em que pudermos simplesmente evitar a queda em si. Pensá-la, a queda, a linguagem, a arte cinematográfica, como potência, como um vazio cheio de possibilidades. Experimentar autenticamente um projeto de cinema livre, de filme livre, em toda sua impossibilidade e necessidade.

Nessa travessia, entre o impossível e o urgente, me pergunto como seria viabilizado a nós exercer tal liberdade em meio a tudo que nos rodeia, antes mesmo de nascermos. Como e por que - talvez o motivo venha em nosso auxílio como bússola - romper os padrões ou utilizá-los de modo a atiçar o pensamento a perfurar outras camadas e criar, ainda que pelo artifício, as condições de quedas mais profundas em nós mesmos? Como esgarçar o entendimento sobre as possibilidades do dispositivo audiovisual, mas também - e ao mesmo tempo - sobre a vida e criar, nesse jogo, verdadeiras paisagens mentais de nossa época, através das quais possamos projetar ideias de futuro atreladas ao devir inerente ao presente? O que quero dizer, voltando-me para Sartre para abrir alguns problemas que a Mostra do Filme Livre coloca, desde seu título e também em sua seleção e programação, é que, se a liberdade é uma condição humana e os filmes são produtos da relação entre o homem, a vida e a técnica, eles carregam em si e entre si, em enlaces, um princípio de liberdade enquanto potência, enquanto possibilidade. Eles podem romper a linearidade de suas narrativas, criar formas e ritmos, estabelecer diálogos os mais diversos com os espectadores, produzir atmosferas que geram diferentes níveis de afecções naqueles que se permitem mergulhar na sala escura.

Consolidada como o maior evento de cinema do país, a Mostra do Filme Livre chega à sua 18ª edição. Nos próximos três meses, o Centro Cultural Banco do Brasil acolherá o evento em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, possibilitando a exibição de mais de 150 filmes e a realização de diversos debates, além de oficinas e cursos voltados para a instrumentalização crítica, teórica e prática acerca do cinema e do audiovisual. Nesta edição, uma oficina de cinema experimental em Super-8 será realizada em São Paulo, sob orientação de Renato Coelho e Priscyla Bettim. Brasília dará lugar a um curso sobre o cinema Super-8 de Pernambuco nos anos 1970, ministrado pelos chefes e curadores da cinemateca pernambucana, Paulo Cunha e Ana Farache. Além disso, o realizador Gustavo Jahn ministrará, no Rio de Janeiro, três aulas sobre seu projeto DISTRUKTUR, partindo de alguns resultados de oficinas práticas realizadas recentemente no Brasil e experimentos em 16mm. Por fim, uma pequena versão da MFL acontecerá em Belo Horizonte e Niterói; o evento produz ainda o que hoje é o maior circuito cineclubista brasileiro, ganhando imensa capilaridade no território nacional ao fomentar exibições de filmes que, muitas vezes, ficariam restritos ao circuito dos festivais.

Por fim, se existe um filme livre, podemos pensar que ele se projeta no mundo enquanto possibilidade, de modo que talvez essa liberdade o coloque próximo ao que um dia Nietzsche pensou sobre a filosofia, sendo, assim, ele também, o cinema, intempestivo: contra o tempo de agora, a favor de um tempo que virá, uma convocação aos presentes.