O QUE É MFL

Quem sabe faz há horas


Na verdade meses, anos, mais de década! 16 anos depois de começar no CCBB Rio por uma semana, o sonho de mostrar filmes que ninguém mostrava se realizou, cresceu ano a ano até se tornar, hoje, a mais relevante mostra do cinema independente brasileiro. Não é pouca coisa para o tipo de evento que queremos ser, ao difundir filmes que antes nem eram aceitos em certos eventos e que hoje são vistos, premiados e queridos, amplificando cada vez mais a voz de quem mais precisa de espaço, pois não o acha facilmente, os que fazem audiovisual sem precisar de editais públicos ou verbas imensas, os independentes, livres!


Dividimos esta conquista com todos que, de algumas formas, participam desta cativante aventura conosco, seja mandando e/ou exibindo filmes, participando das sessões, debates ou das oficinas. Nosso foco sempre foi e segue sendo a valorização do filme autoral, pessoal e/ou coletivo, feito sem muita grana mas repleto de gana, por motivos que vão além do comercial, mais importando a vontade e a capacidade de se expressar audiovisualmente, dizer ao mundo, também poeticamente, algo que ele ainda não sabe, esqueceu ou mesmo nem gosta, filmes que revirem e coloquem em questão a vida e o cinema feito agora neste planeta.


O mais importante são os filmes, é por eles nascemos, lutamos e resistimos, mostrando ao público obras ímpares, feitas de formas idem. A produção brasileira é tão grande quanto instigante e nosso foco tem sido ajudar a milhares de filmes a serem mais e melhores vistos, reconhecidos. Esse é o nosso papel, descobrir onde estão as diferenças em nosso tão cativante cinema não comercial e mostrar, literalmente, que há muita qualidade e questões relevantes neste cinema possível, que vai léguas além do entreter e agradar a maioria.


Guilherme Whitaker

Mostrando Filmes Livres

03/2017



Em 2017 estaremos no CCBB Rio (a partir de 29 de março) e no CCBB de Belo Horizonte (a partir de 17 de maio), em São Paulo (Matilha Cultural), em Niterói (Cine Arte UFF) e pela primeira vez na América do Norte, em Boston (Boston University), e claro, na maior ação cineclubista em voga no Brasil, os Cineclubes Livres (inscrições em breve). 


Este ano tivemos 1.155 filmes inscritos, sendo apenas 196 (18%) feitos com apoio estatal direto; 341 filmes de escola e 859 inéditos no RJ; o inscrito mais antigo foi de 1982. No total tivemos 99 longas (mais de 60min.) inscritos, e 30 foram selecionados. Foram selecionados 170 filmes, apenas 15% dos inscritos. Outros 40 filmes foram convidados, totalizando 210 filmes nesta edição. 


Dos selecionados, 52 filmes tiveram apoio estatal, cerca de 36%, um recorde em comparação aos anos anteriores, apontando que filmes incentivados estão ficando mais livres, não vamos reclamar!


Dos filmes selecionados, 90 são inéditos no RJ, 52%! 39 são filmes de escola (dos 341 inscritos), um ótimo número, correspondendo a 24% do total de filmes na mostra! 


Inscritos selecionados, por UF: SP= 338/36, RJ= 268/52, MG = 111/17, CE = 54/13, PE; 51/10, GO = 49/3, PR = 48/8, RS = 39/5, BA = 39/7, DF = 33/2, PB = 22/3, SC = 22/6, ES = 20/2, PA = 5/1, MA= 3/2


Pela primeira vez fizemos uma compilação de informações relacionadas ao gênero na direção dos filmes e colhemos estes interessantes dados:dos inscritos, 252 (22%) tem mulheres na direção. E dos selecionados, 61 filmes são dirigidos por mulheres, ou seja, 36% do total !!!


Dos filmes dirigidos por homens, apenas 13% foram selecionados, enquanto 24% foram feitos por mulheres. Em 2015 tivemos 1.500 inscritos, 256 feitos por mulheres, com 53 selecionados. Em 2016 foram 1.300 inscritos, com 158 filmes feitos por mulheres e 49 selecionados, ou seja, em 2017 teremos um recorde de filmes dirigidos por mulheres, 61!


Seleção e programação da MFL2017 em breve!


A MFL é gratuita como deveriam ser todos os eventos feitos 100% com verbas públicas!!




Sob a constelação do filme livre, nós.


“Para mim cinema é cinema, cinema, cinema, como uma rosa é uma rosa.

Claro que é algo entre tempo e espaço. Mas isso é uma questão muito ampla.”

Chantal Akerman

 

 

Mais do que proximidades, este é um momento de dizer das distâncias, esta força que nos fez buscar comunhão tendo como centro o filme livre, a partir das proposições de recorte que compõem a MFL nesses agora 16 anos. O encontro com nossas distâncias, entre nós curadores, é sempre uma questão complexa para o estabelecimento de partilhas. Tão inatingível quanto incansável foi nossa tentativa de busca pelas liberdades - desejo comum de orquestração entre igualdades e diferenças.

Com um olhar feminino de sol e ascendente em Libra, começamos a trilhar de longe, cada uma de nós, o caminho rumo aos filmes, ensaiando equilíbrio entre crenças e paixões, bem como entre nossos estados de avidez por cinema e/ou gravidez em arte. Diante dos filmes e da longa trajetória de curadoria da MFL, bem como a partir de nossas próprias experiências, colocamo-nos à disposição para contemplar os filmes de curta e média metragem inscritos nesta edição. Assim, o percurso até chegarmos ao programa de cada sessão da mostra Panorama foi sendo desenhado por cruzamentos, encontros e embates, ora reforçando, ora rompendo nossas noções de cinema e de arte, de mulher e de política.

O consenso não existe. Nossas distâncias foram a maneira encontrada durante o processo da seleção, para desenhar contornos mais corpóreos na neblina conceitual do filme livre e, assim, esboçar constelações, nebulosas ou galáxias de filmes! Nesses conjuntos orbitam, não apenas os títulos escolhidos para compor as sessões, mas também aqueles que não entraram nessa seleção. Seguindo estes termos astronômicos para representar astros em proximidades, distâncias e escalas de tamanho, podemos adentrar nesta alegórica narrativa sobre o processo de seleção e programação, para dizer do universo das 170 obras selecionadas para esta edição da MFL, bem como do movimento que fazemos ao agrupá-las em torno de eixos gravitacionais representados pelo recorte de cada uma das mostras. Uma constelação em meio à um universo: eis uma possibilidade para se mirar os 21 filmes da mostra Panorama dentro do desenho maior de programação da MFL 2017.

Desde a primeira das sessões Panorama de curtas até a quinta e última, interessa-nos destacar gestos que foram cruciais para presentificar o recorte da constelação que ora apresentamos. Ao que se propõe a sessão, estes filmes estariam sob o signo da inquietação que ecoa do contemporâneo de barbárie, golpe e calamidade, em toda a sua urgência inalcançável. Tateando no escuro infinito desse ideal, pudemos experimentar nestes kynemas, performances igualmente delicadas e doloridas, com a sutileza que só as forças mais avassaladoras na natureza artística conseguem fazer dançar. Dançamos e pisamos muito nos pés dos filmes e os filmes nos nossos.  E nós, uns nos outros. Mas a pulsão de vida-e-morte dessas obras, delírio que oscila entre a rotina e o descontrole – assim como o fazer cinematográfico – fez combinar procedimentos que podem parecer ser do arco da velha da história das artes com ondas superdance de brócolis cru a exalar certo cheiro de melancia, principalmente para Luiza e Abigail. Enfim, memórias de um amnésico é um pouco algo de que fica. À campana, vimos que o cinema desenhou a si mesmo em nós. Honra e mérito dos filmes que conseguiram fazer-se ver.

Este texto pode ser lido, então, como uma possibilidade de carta natal da décima sexta edição de uma mostra que, uma vez parida, quer dar luz a uma forma de conceber e organizar os gritos e gestos de cinema que vimos e ouvimos nos filmes. Cada filme, um corpo celeste. Cada sessão, um convite a ouvir estrelas e mirarmos de perto as distâncias em nós e através da arte. Nesse sentido, cada filme ecoa não apenas nas sessões em que estão gravitando ao seu redor, mas também em outras obras, eventos e universos através de nós. Mais do que uma carta de apresentação, trata-se de um convite ao espectador para que venha desenhar suas próprias constelações (ou galáxias!) a partir de sua experiência intransferível com os filmes que cintilam entre as sessões programadas.

Por Raquel Junqueira e Scheilla Franca


Carta sem título para os curiosos desconhecidos



(PRÓLOGO: este texto não expressa necessariamente a opinião da Mostra do Filme Livre nem de seus curadores, reflete apenas a "opinião pessoal" do autor)


O Brasil de hoje não é o que era antes. Não sei ainda se isso é bom ou mau. Os fantasmas despertaram e eles não se divertem. Fazer curadoria de um festival de cinema virou um quebra-cabeças. É preciso ter "representatividade" de filme de gênero, dos documentários, das animações, de filmes de todas as regiões geográficas do Brasil, filmes das minorias, dos negros, dos LGBTs, das mulheres, filmes sócio-políticos. Um pra lá, dois pra cá. E o cinema, diante de tudo isso? E o gesto daquele realizador que deseja expressar algo para o mundo que ele próprio não sabe muito bem o que é? Como ele fica diante desse quebra-cabeças? O filme precisa ter um discurso prévio à sua realização para entendermos suas intenções? O filme precisa vir acompanhado do RG do cineasta? Como o cinema pode operar diante do desconhecido? 

Um filme, uma obra de arte, não precisa ser contemporâneo ao seu tempo, já dizia Agamben, já dizia Godard. Vivemos estressados. E dizem que o estresse é o excesso de presente. Uma vez Godard perguntou a Straub porque, em pleno maio de 68, quando os estudantes estavam nas ruas dando o seu sangue nas barricadas, ele fez um filme (anacrônico) como Crônica de Anna Magdalena Bach. Foi então que Straub lhe respondeu que seu filme era exatamente sobre isso, que esse seu filme (aparentemente inofensivo, ou aparentemente apolítico) sobre as cartas trocadas entre Bach e sua esposa era justamente uma resposta à invasão dos Estados Unidos ao Vietnã. Straub também disse a mais bela frase que já ouvi sobre o cinema político: "saber fazer a revolução também é saber filmar o som do vento que balança a copa das árvores." Ora, pois como iremos fazer a revolução se não conseguimos mais sentir o cheiro das folhas das árvores? 

Diante da enorme efervescência que foi o ano de 1968, fico pensando que talvez os filmes que mais me movam hoje e que foram realizados nesse ano e no seguinte são "Crônica de Anna Magdalena Bach", "A Cor da Romã", e "Walden". Três filmes que não expressaram sua adesão ao movimento das ruas de modo direto, explícito. Pois a arte tem meandros que permite que o artista se expresse de muitas formas, pois o grande desafio do cinema livre é, acima de tudo, ampliar a nossa experiência sensível diante do mundo. 

As minorias despertaram do seu transe, reivindicando um país mais justo, diante do extermínio planejado e velado de milhões de negros, mulheres, transsexuais, pobres. Seu ódio, sua raiva, diante dos milênios de mortes represadas, são inevitáveis. Mas como é possível convivermos juntos dadas as nossas diferenças? A única saída é a violência? Será que é ainda possível debatermos as nossas diferenças sem nos matarmos? Ainda é possível con-viver? É possível resistir de muitas formas. Queiramos ou não, as culturas são híbridas. Aqui convivem o catimbó e a feijoada. O Zé-Pereira e os blocos de sujo continuam tirando o sono e a tranquilidade das ruas, pelo menos por alguns dias do Carnaval. 

E como o cinema pode reagir diante disso? Venho relendo e tentando refletir com as lições da Rússia dos anos vinte e da França dos anos sessenta. Creio que o cinema não pode ser instrumentalizado diante da luta sociopolítica, com o risco de se transformar num mero panfleto ou manual, como os filmes do realismo social do governo de propaganda russo. Me interesso em pensar no gesto de líderes intelectuais da esquerda francesa, que romperam com o partido comunista por não concordarem com os rumos da esquerda nos anos cinquenta e sessenta. Ou ainda, com o cinema novo brasileiro, quando Glauber fez a opção extremamente corajosa de se rebelar contra o realismo descritivo dos filmes do CPC e foi buscar uma "estética da fome", e depois uma "estética do sonho", para que os filmes expressassem no seu próprio modo de ser a busca por uma expressão autônoma, livre, anti-intelectual, primitiva, antiburguesa e anticolonizada. 

Essa é a busca do cinema livre por vários anos. Os artistas muitas vezes escolheram os caminhos mais difíceis, e, por isso, não foram compreendidos no seu próprio tempo. Eles não aderiram imediatamente às causas de seu tempo, e essa não-adesão talvez signifique que eles estavam mais próximos de seu tempo do que seus contemporâneos. À medida que a luz se aproxima, sinto que precisamos cada vez mais voltar nossos olhos para a escuridão, pois há algo ali adormecido que possa nos fazer sentir melhor esse abismo que nos sangra. 

É preciso estarmos juntos, nos movimentos, nas praças, nas ruas, lutando pela liberdade. Mas ainda defendo radicalmente a possibilidade de estarmos sós. Sinto-me só, e não deixo de lutar por causa de minha solidão, mas, ao contrário, luto exatamente pela minha condição. Defendo a possibilidade que cada pessoa ainda possa se expressar por si só, sem representar nenhum "grupo" ou "instituição". Defendo a existência das aspas. e das "opiniões pessoais".

Estou só. Continuo sendo aquele menino ingênuo que observa você dançar lá embaixo na rua, abrindo um canto da minha janela. O menininho de "Não Amarás". Minha solidão não me enfraquece, mas é tudo o que tenho, pois sou eu. Não faço adesão a nenhum grupo, a nenhum partido político, a torcida organizada de time de futebol, aos "grupos de pesquisa" da universidade, a nenhum coletivo de cinema, a nenhum grupo de artistas ou intelectuais, a nenhum movimento social. A independência, a liberdade, são uma forma de solidão. Acredito que uma das missões do artista e do crítico é estar só. Permaneço defendendo a possibilidade de um filme todo realizado por uma única pessoa, dentro de sua casa, como se fosse um livro ou um quadro. Que gesto essas obras solitárias podem oferecer ao mundo? Não tenho ideia. Mas continuo a jogar essas garrafinhas lá para o fundo do mar, o mais longe possível de mim, com todas as minhas forças. Jogo-as e deixo que o vento ou as marés as levem. Em cada uma delas, há apenas uma mensagem: "eu te amo". Como diria um provérbio chinês, "tudo passa". Talvez alguma delas chegue até a ti. Talvez algo seja transformado quando você abrir a garrafa e a ler. Provavelmente não. Mas permaneço sistematicamente exercendo o meu fracasso, esse exercício sistemático de minha solidão. A liberdade, para mim, nada mais é do que o gesto (ou a possibilidade) de jogar algumas dessas garrafas ao mar. Mas como podemos ser livres sem o outro, trancafiados dentro de casa? Há algo que me leva a querer romper esse casulo e voar. Esse gesto é meu amor por ti, é meu desejo de encontro. Há algo que falta mas que sinto que essas palav

Por Marcelo Ikeda

(texto cortado a pedido do autor)


MFL2016

VIVENDO O CINEMA POSSÍVEL BRASILEIRO
Guilherme Whitaker

A MFL nunca teve medo, nem terá, de se colocar a favor do cinema feito em casa, por amigos e ou amantes da livre expressão e da poética audiovisual. Lutamos por este cinema de baixo orçamento, mas muito cabimento, somos um audiovisual a buscar os interessados mais em conteúdo do que entretenimento fácil. Também por isso nascemos e estamos há 15 anos no maior centro cultural do país, o CCBB. A cada ano, por meses, mostramos centenas de filmes para milhares de pessoas, tambem chegando a mais de 60 cidades via cineclubes e este ano, pela primeira vez, também em Niterói, no CIne Arte UFF.

Temos feito questão de ser um evento exótico, plural e múltiplo, ímpar como o nosso cinema, lindamente horrível e/ou horrivelmente lindo, pois depende de tudo, principalmente das referências de quem o faz e o assiste. Somos ou nos achamos um espelho da complexidade do cinema de baixa grana e alta inventividade, um cinema livre, feito no Brasil. Fomos e somos pioneiros nessa abordagem, hoje felizmente espalhada por mais e mais lugares, sendo relevante pra cada vez mais gente.

Na MFL pensamos e mostramos um cinema transformador de mundos e destinos, de quem faz filmes e de quem os assiste. Já exibimos mais de 3 mil títulos, a maioria só sendo exibida por nós e de certa forma indicamos a seus realizadores que vale a pena investir seu tempo, sua grana e sua gana para realizar suas ideias, seus sonhos de expressão, torná-los filmes, pois há quem os valorize, quem os queira exibir e debater, quem sabe premiar. Sim, há luz no fim deste túnel. 

Somos então a valorização do cinema feito nos quintais e garagens dos grandes e pequenos centros e suas periferias, por um cinema cujas referências sejam mais originais e ousadas e, daí, mais importantes e duradouras do que os eternos mimimis dos zumbis a copiar  a cópia da cópia cujo original muitas vezes já é uma cópia questionável.

Nosso gol é deformar um público formatado pela grande mídia conservadora e comprometida com o capital e/ou com visões e práticas teocráticas que tanto atrasam a sociedade ao violentar o mundo laico, como se o século XX nada tivesse ensinado à humanidade. Queremos mostrar, em filmes, que tais enredos sebosos podem ter e tem, não de hoje, muitas moedas e poder, mas que na MFL eles não passarão, pois nós passarinho!


A doença do sono

Marcelo Ikeda 

            Em 2016, a Mostra do Filme Livre completa quinze anos. Nesse período, muitas águas rolaram no cinema brasileiro e no país. A Mostra inaugurou sua primeira edição nos primeiros anos deste século XXI. O cinema brasileiro ainda engatinhava no seu período de "retomada". Ainda persistia uma visão de que o caminho era profissionalizar o cinema brasileiro, com grandes orçamentos e histórias respeitáveis. Na maioria dos casos os filmes eram corretos na intenção e na execução mas muito conservadores. Havia toda uma geração que não se identificava com o que via na tela. Havia uma amargura, uma angústia e queríamos colocar na tela essa insatisfação com o rumo das coisas, mas ninguém sabia exatamente como. Essa inquietação combinada com essa dúvida na verdade considero que foram os grandes motores de um sopro de renovação no cinema brasileiro. O avanço da tecnologia digital - ou melhor, a popularização das cameras minidvs e das ilhas não-lineares portáteis, pois o vídeo já existia há muito tempo - possibilitou que as experimentações fossem mais possíveis. Muitos curtas começaram a ser feitos, em todos os recantos do país. Os cineclubes surgiram, pois os festivais de cinema ainda estavam atrelados a essa campanha institucional do "cinema brasileiro para o respeitável público". A Mostra do Filme Livre surgiu nesse contexto, abrindo espaço para os doidinhos e irresponsáveis, para os que não queriam fogo mas "fumaça". Havia alguns antecedentes, como o importante Forum BHZ Vídeo, mas mais próximo da chamada videoarte e de uma disputa sobre a autonomia do video em relação ao cinema, mais próximo às artes visuais. A Mostra do Filme Livre veio para confundir, "tudo junto e misturado". Vídeo, película, Super-8, 35mm, ficção narrativa, documentário, videoarte, ensaio visual, e outros nomes mais, tinham espaço na mostra, independentemente da bitola, do formato, do gênero. A MFL já nasceu multi, inter, poli e trans e muitos outros prefixos e sufixos. Pela formação daqueles que a integra(va)m, a MFL acabou ficando por dialogar mais com o campo do cinema - se bem que não sabemos mais o que cinema é, muito mais um "lugar de fala" do que um termo semântico.

            Quinze anos depois vemos que muitas das apostas da MFL desabrocharam. Temos hoje de fato um cinema brasileiro muito mais plural, e de muito mais possibilidades. Há hoje um cenário de produção e de difusão muito mais amplo. Amplo, mas ainda muito pequeno, com muitos latinfúndios ainda inexplorados, como a internet e as novas mídias. Amplo, mas extremamente fechado e elitista. Por outro lado, a MFL optou por permanecer num certo lugar restrito em relação a outras mostras de cinema no país. A MFL nunca fez questão de implantar a fórceps modismos e tendências. Nunca fez questão de impor o critério de ineditismo, o que faz com que muitos realizadores deixem de lado a mostra, em busca de outras vitrines mais atraentes. Nunca fez questão de orientar sua curadoria para se aproximar dos curadores internacionais nem da crítica de cinema brasileira (nem a tradicional nem a dos "novos críticos"). Esteve sempre num lugar à margem, mesmo à margem desse circuito alternativo que hoje cada vez mais se institucionaliza. A verdade é que a MFL sempre foi menosprezada, pois a humildade de sua proposta nunca foi entendida de fato pelos que buscam os corredores do cinema como instrumento de poder. A mostra nunca quis ser acadêmica nem nunca quis ser popular. Mas, vendo em retrospecto, tenho um certo orgulho dessa independência. Destacamos também grandes personalidades do cinema brasileiro, porque somos herdeiros de um cinema de resistência: Tonacci e Rosemberg são os que hoje ressurgiram em visibilidade, mas também José Sette, Elyseu Visconti e tantos outros.

            Hoje o cenário da produção audiovisual brasileira e das mostras de cinema independente é muito mais sólida do que há quinze anos. Mas vejo nisso um risco. Vejo uma certa acomodação, uma certa inércia. Uma doença do sono. Esse circuito está cada vez mais apontando para um cenário de "risco calculado". Com as fantásticas conquistas do Fundo Setorial do Audiovisual da ANCINE, agora cada jovem realizador quer fazer o seu projeto de desenvolvimento, montar a sua empresa produtora para ganhar seu primeiro milhão com seu "núcleo criativo". Os vídeos de curta-metragem para conseguirem ser exibidos nos festivais de cinema precisam dialogar com uma série de conceitos curatoriais pré-definidos. A crítica de cinema na internet vem definhando. O primeiro milhão agora é cada vez mais acessível, então let´s go, "vamos a ele". E tudo tem o seu preço. Os antigos garagistas agora brindam nos festivais internacionais, tentando negociar com os sales agents. Enquanto o país fervilha e os jovens vão às ruas buscando entender e se arremessar ao mundo, sinto que a maior parte dos realizadores que mais propuseram um cinema de invenção há quinze anos agora querem pagar suas contas, viajar para os festivais internacionais e batalhar pelo seu milhão. O cinema ficou em segundo plano em relação às estratégias de poder.

            Ainda assim, sinto que o cinema independente brasileiro permanece com seus momentos de muita pulsão. Enquanto uma geração envelhece, outra surge ainda mais jovem. Fico comovido como obras como FILME DE ABORTO, de Lincoln Péricles, ou o curta CORAÇÕES SANGRANTES, de Jorge Polo, sinalizam para esses sentimentos de juventude, de ousadia e de esperança, por meio de uma linguagem pura, que não esteja contaminada pelo "comércio de arte", pelo desejo de "sucesso instantâneo", ou de repetir as fórmulas das curadorias pré-formatadas e dos festivais internacionais. Porque são filmes colaborativos cheios de raiva, de angústia, de solidão, mas sobretudo de desejo. São os vagalumes que continuam piscando, seja no meio da escuridão seja diante dos holofotes do "cinema de grife".

            Tenho a profunda esperança que este texto ecoe e que, algum dia, alguém no futuro ainda possa lê-lo, como um náugrafo ao encontrar uma garrafa lançada ao mar. Gostaria de escrever mais, mas não posso, não convém. É preciso ler nas entrelinhas. A MFL completa 15 anos e me parece que estamos todos dominados pela doença do sono. Querem nos dizer que tudo tá tranquilo tá favoravel. Só que não.....