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Homenagem a ANA CAROLINA

 

Ana Carolina Teixeira Soares - ou simplesmente Ana Carolina, como assinou boa parte de seus filmes - faz parte de uma geração de cineastas singulares que surgiu nos anos sessenta ou setenta que, ao meu ver, oscilaram entre as influências do cinema novo e do cinema marginal. Entre eles, podemos relacionar realizadores como Luiz Rosemberg Filho, Carlos Alberto Prates Correia, José Sette de Barros, entre outros.


O cinema novo teve uma importância central no cinema brasileiro após os anos sessenta. Essa geração de realizadores foi alimentada pela proposta do "cinema de autor" típica dos cinemanovistas, mas ao mesmo tempo seus filmes apresentavam outros valores estéticos e políticos. Se eram ligados ao cinema moderno, rompendo ao cinema industrial e narrativo de moldes mais clássicos, esses autores foram alimentados por um projeto pessoal de cinema, seguindo caminhos próprios que os distanciam dos principais pilares do movimento.

Associo essa geração de realizadores brasileiros com a de Jean Eustache, Chantal Akerman, Maurice Pialat e Philippe Garrel no cinema francês do final dos anos sessenta. A relação dessa geração de realizadores brasileiros com o cinema novo me parece que guarda muitas semelhanças com a dessa geração de realizadores franceses com a nouvelle vague. São herdeiros de um movimento concêntrico, que reorganizou o pensamento de cinema local de forma irreversível, mas não são meros seguidores nem diluidores. Numa relação quase edipiana, beberam da fonte do cinema novo para levá-la a outros recantos.


Ana Carolina se tornou mais conhecida por sua trilogia composta por Mar de Rosas (1977), Das Tripas Coração (1982) e Sonho de Valsa (1987). Realizados num período de 10 anos, falam sobre a condição feminina, em que a mulher luta por sua liberdade individual. Uma reflexão do que é ser mulher numa sociedade patriarcal e machista. A mulher é um símbolo de resistência e de liberdade no seio da "família-tradição-propriedade". Se existe uma angústia dessa mulher que sonha e é reprimida, a abordagem de Ana Carolina busca o humor, a ironia, como forma de a narrativa subverter a opressão. Esteticamente, seus filmes são repletos de excessos, contra as convenções do bom gosto narrativo ou da continuidade visual. Muitos diálogos, grandes elipses, mescla entre realidade e fantasia, sonhos eróticos. De uma certa forma, a escrita pessoal de Ana Carolina pode ser associada com o gesto de artistas como Ana Cristina Cesar e Hilda Hilst. Seus filmes também podem ser associados com outras cineastas brasileiras, que, ao longo dos anos setenta, fizeram filmes infelizmente hoje pouco lembrados sobre a condição feminina, como os de Vera de Figueiredo e Teresa Trautman.


Com o fim da Embrafilme e a entrada do cinema brasileiro na era da captação de recursos pelas leis de incentivo, Ana Carolina, assim como muitos cineastas brasileiros desse período, enfrentou dificuldades para manter seu ritmo de produção. Após Sonho de Valsa, Ana Carolina permaneceu quase 15 anos até o lançamento de Amélia, em 2001. Nesse filme, a questão feminina ganha outro viés, retratando a chegada ficcional de Sarah Bernardt ao Brasil e o contato do olhar estrangeiro com a cultura local, com uma perspectiva histórica. Imaginamos que A Primeira Missa, filme recém-finalizado da realizadora, prossiga essa linhagem.


A Mostra do Filme Livre tem o orgulho de apresentar uma retrospectiva dessa singular cineasta brasileira, cuja filmografia reflete o desejo pela liberdade e pela fuga das convenções morais e estéticas que assolam grande parte da nossa tradição cinematográfica e brasileira. O legado político e a atualidade do cinema de Ana Carolina são a sua irreverência, seu discurso libertário mas ao mesmo tempo não-ressentido, nessa busca desesperada de que seus personagens possam ser de fato como verdadeiramente são, que eles possam despir suas máscaras e embarcar nessa fascinante e tenebrosa aventura chamada vida.   Por Marcelo Ikeda
 

 



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