PREMIADOS

Os filmes premiados na MFL ganharão o troféu FILME LIVRE! e virão ao Rio de Janeiro apresentar e comentar suas sessões, além de receberem seus troféus, claro! Os filmes também ganharam textos inéditos feitos pelos curadores da MFL.

Tais textos seguem publciados abaixo, curta a vontade!!

 

O longa livre de 2013 é:

ESSE AMOR QUE NOS CONSOME, 80 min., RJ, de Allan Ribeiro


O TERREIRO, O AMOR E A CIDADE

Um tabuleiro de búzios. Fora de campo, a voz de Gatto Larsen esclarece que se trata de um problema de moradia. Também fora de campo, a Mãe de Santo saúda todos os orixás, conversa com as divindades e afirma que Iansã estará abrindo seus caminhos: “Não importa o caminho. Não precisa de dinheiro. Vocês vão permanecer nesta Casa”. Eparrei Oyá! A mesma Iansã que protege Rubens Barbot, desde sua confirmação no terreiro das artes e outras linguagens não verbais - a dança do orixá no candomblé aproxima a linguagem não verbal de sua dançavida. Esse terreiro é compartilhado e Barbot e Gatto vão construir juntos um espaço de vida e arte em um casarão que se encontra à venda no centro da cidade. Mas a cidade, para eles, é outra. O centro da cidade é espaço de afeto, poesia, memórias e danças que refletem as crônicas da cidade subterrânea: os operários das obras transtornados pela nova versão da Cidade Maravilhosa, que expulsa seus próprios moradores; traficantes, bêbados e puxadores de fumo em uma favela carioca, agora ponto turístico, com a “bênção” das UPPs; o toque e a dança dos orixás e a coreografia quase surrealista de um dos dançarinos que mostra um novo passinho do funk carioca. Corte para a “vida real”: conversa com o povo de rua, um diálogo sobre a solidão e a violência urbana, uma idosa solitária - Allan Ribeiro reencontra uma das mais divertidas personagens de seu documentário de estreia, Senhoras (2001), em deliciosos papos na Praça da Cruz Vermelha, fronteira emblemática entre a Lapa e a Zona Norte da cidade. Há um estranho sentimento de pertencimento (e distanciamento) em relação à cidade, que não é a cidade da praia e do carnaval, mostrada à exaustão em grande parte das produções cariocas. É um outro olhar sobre o Rio Babilônia. Ao acompanhar o cotidiano do casarão onde moram e sua vizinhança com suas ruas vazias, estas duas cidades coexistem. O mesmo Rio de Janeiro, lugar de especulação mundial, às vésperas de Olimpíadas e Copa do Mundo, existe para Gatto & Barbot e companhia como lugar de sonho e resistência. 

O processo criativo de Barbot e Gatto, que também assinam a direção de arte, é a invenção de Allan Ribeiro em Esse amor que nos consome, fi lme raríssimo no recente cinema brasileiro, que escapa de qualquer gênero. Sem ser documentário nem fi cção, a vida e os ensaios de Gatto, Barbot e sua companhia de dança se misturam a diálogos verdadeiros einventados. Allan Ribeiro acredita em seus personagens/ atores, há um terreno (ou terreiro) comum, uma confi ança, identifi cação total entre diretor, fi lme e personagens. 

Entre o desejo de Gatto e Barbot de fazer uma grande montagem de um espetáculo e a dificuldade de um dos integrantes do grupo que necessita trabalhar e ter salário fi xo para ajudar a família, está tudo lá, a dignidade de viver da arte, a construção de um terreiro/casa/afeto, acerteza de um caminho, de estar fazendo “história no terreiro”. A fé na potência da energia da arte: “é a partir desta energia que a gente irradia, instala, impregna as paredes, a vizinhança. É por isso que é meio difícil sair deste lugar”. Isso é quase um manifesto! O tal amor que consome. Um dos mais belos longas de estreia de um diretor carioca. Uma metáfora poderosa.      (Chico Serra)
 

E os 7 curtas prmiados são: 

FIM DE FÉRIAS,  SP, de Camille Entratice

Me vi subindo as paredes de tédio em um dia de chuva incessante, e não digo de qualquer tédio, mas de um contagiante, desses que chegam a lacrimejar no canto do olho quando bocejamos. “Fim de férias” é um registro afetivo e não menos critico da vida em família nos dias atuais, quando se lança sobre um recorte especifi co do cotidiano de um pré adolescente contemporâneo, confi nado em casa com os avós durante seus ultimos dias de ferias escolares, sem amigos a não ser os adultos e os cachorros. A poesia do fi lme reside justamente no vazio que se instaura a partir disso, um esvaziamento precoce da infância e, ainda assim, uma certa subversão desses limites, como quando ele brinca sozinho com uma pipa ou nas horas que passa adulando seus dois cachorros. É um filme corajoso, uma vez que a diretora não é uma estranha nessa situação, mas prima de Lucas, o personagem principal, ainda que não se prive de uma autoralidade critica em relação não somente àquela familia, mas ao modo como as cidades têm proporcionado cada vez menos oportunidades de um desenvolvimento mais livre e lúdico para a juventude.        (Gabriel Sanna)

 

FILME PARA POETA CEGOSP, de Gustavo Vinagre

O Filme para poeta cego é tramado dentro de duas salas e de um quarto de casal que são “caixas no teatro do mundo”. Neste universo fetichista, o poeta cego faz de seus ex-olhos os olhos de seus parceiros.  O filme é uma brincadeira sadomasoquista. A cegueira constrói um filme para si, audiodescrito, e empresta ao sadomasoquisto a ideia de regras do jogo.  “Quase toda brincadeira é um jogo, e todo jogo tem suas regras”. Condições específicas para a troca de papéis foram impostas ao roteiro do filme. O roteirista e diretor Gustavo Vinagre as aceita. As regras, aqui, interessam por várias razões além da questão sexual.  Sabemos que o poeta Glauco Mattoso é o nosso maior sonetista vivo. O soneto, por sua vez, é um tipo de poema bastante regrado. O filme, regrado também, expõe seus desafios e dá a cara a tapa ao esticar uma linha de tensão entre o espectador e a imagem (você não sabe até onde o filme pode chegar). A tensão é uma presença necessária no contexto da entrega masoquista e da crueldade sádica. A tensão está contida na panóplia sadomasô; os chicotes, o couro, as cordas, a venda… A venda nos olhos é uma alegoria da condição do cego. O vendado, nas brincadeiras sexuais, assume o papel do escravo, aquele que é chutado, rasgado e sacaneado. Glauco nunca mais poderá ser vendado; sua “carreira de ator já foi cumprida”, a venda em olhos que não vêem perde a sua função castradora e a sua maldição. O poeta Glauco já vive numa realidade "preto nevoenta" onde tudo está fora de quadro; não há quadro visível fora da lembrança. Glauco, vendado para sempre, assume no filme a sua desforra; ele é o sádico e o Sátiro. O oráculo maldito prevê um drama subversivo onde você e o reflexo da sociedade, intolerante e violenta, se confrontarão, intimamente, sem nojo e sem pudor. O diretor e escravo Gustavo Vinagre foi punido, amarrado, talvez estuprado ao vivo, por não ter sido um bom garoto. A sociedade tolhe e segrega porque o homem caga na cabeça de quem está por baixo. Se o sadomasoquismo é paradoxal, o filme captou o seu conflito essencial e culmina durante a leitura do poema tostado em braille nas costas do gueisha Akira.  No fim do filme ouvimos a trilha extraída do histórico CD Melopéia - Sonetos Musicados. Melopéia rima o lado B dacontracultura. A faixa "Confessional" enuncia o tom do curta; de (des) amor e dor. (Manu Sobral)

 

DJINN, RJ, de Eliane Lima

Djinn nos lança em uma cidade imaginária a refletir sombras, e passamos o filme sem saber mesmo o que, como, onde, por quem, ou qualquer dessas trivialidades mundanas que tesam espectadores quando em uma sala escura de olhos abertos. Seu encanto reside justamente nessa ausencia de centro, não muito diferente de se perder por labirintos de uma metropole desconhecida. Essa não narrativa fragmentária se revela também através de uma cama sonora intensa, por vezes angustiante, em outras ocasiões irônica, como quem sente prazer em deixar o espectador quase sentir o gostinho doce do entendimento para então, de repente, mostrar o vazio, a ausência, as costas da mulher que não sabemos e nunca saberemos quem foi, porque nada de costas e prefere assim mesmo, enigmatica. Extremamente sensorial, estranhamente dialético em sua composição imagem/som e autodestrutivo, como um poema com uma bomba na mão pronto para deixar de sê-lo.  (Gabriel Sanna)

 

O UNIVERSO SEGUNDO EDGAR A. POE, RJ, de Alexandre Rudáh

A imagem hipnótica, a epilepsia e a demência alcóolica também compartilham suas experiências com os êxtases da arte. O universo extraordinário e doentio de Edgar Allan Poe alimentava-se das maravilhas e dos horrores experimentados nos estados de embriaguez do próprio escritor. Seu último texto, no entanto, é um teorema sobre o universo, prosa poética escrita com absoluta clareza e precisão. "Eureka" sempre foi o texto mais hermético e menos conhecido de Poe, permaneceu como um canto do cisne, disponível apenas ao de fôlego ilimitado. Parece ser faminto o autor desse filme: tarefa ousada esta, de traduzir para o cinema o mais abstrato dos textos do criador do universo fantástico na literatura. O desafio teve sucesso: a tradução e a adaptação feitas pelo próprio AlexandreRudah, na excelente narração de Pedro Paulo Rangel, criam um êxtase vertiginoso, quandomisturadas com as imagens aparentemente aleatórias que pulsam diante de nossos olhos. As imagens do filme flertam com a banalidade, tudo aquilo que já conhecemos e vimos milhares de vezes, o horror, o sexo. Mas a insistência no caminho transforma o óbvio em inteligência, fomos fisgados e agora não há mais como voltar. O mundo do acesso virtual trouxe toda a iconografia ocidental à disposição de nossos sonhos de imagens. Pulsando, contornando o poderoso texto, as imagens nesse filme tecem o solo das palavras, uma experiência que faz do cinema um caleidoscópio de reflexões. Um filme para aqueles que sentem mais do que pensam.    (Cristiana Miranda)

 

A ONDA TRAZ, O VENTO LEVA, PE, de Gabriel Mascaro 

O breu monocromático da pele suada, cor da terra da parede encardida, é o ponto de partida na imersão no cotidiano aparentemente tedioso deste individuo tão ambíguo quanto singular que o filme nos revela, quadro a quadro. Uma intimidade distante e silenciosa, que vai se forjando a cada plano enquanto percebemos um pouco mais do que se passa ali. Um jovem adulto macho lavando roupas de criança,que na sequência nos é apresentada como sua fi lha e que insiste em falar com ele, ape sar de sua surdez gritante. O sujeito sai de si, se entrega, canta, dança, pula, grita, vai às compras, come a amiga, mergulha e volta, sempre imerso em seu silencio incógnito. Do lado de cá, a cidade insiste em berrar da minha janela, as roupas acumuladas no cesto, o rigor pontual dos enquadramentos e a sensação real deque todos estão surdos...   (Gabriel Sanna)

 

BURACOS NEGROS, SP, de Nana Maiolini

Buracos negros é um cinedança feito em três movimentos, um fi lme que surge de uma belíssima performance realizada no centro da cidade de São Paulo, no mesmo lugar onde sangrou o coração da guerra entre policiais e viciados em janeiro do ano passado: a cracolândia. Presentes e atentas ao profundo processo de transformação que se desenrola no local, as bailarinas e a câmera despejam sua poética pelas calçadas, enrolam cores nas grades, repetem os gestos da retroescavadeira. Chove forte e a cidade continua a arder. Os habitantes do local se aproximam. Consumidos pelo crack, eles vagueiam sem entender a presença das moças, das câmeras. Na crença de que a arte pode estar em qualquer lugar, o grupo segue seguro em suas ações e a dança se instala na cracolândia. O corpo humano é, afi nal, capaz de dançar. Com essa capacidade mágica, temos toda a beleza dos gestos, o ritmo, a entrega. A dança chega vestida pela própria cidade, giros e saltos, sentimentos e angústias  compartilhados. E temos, enfi m, o samba, essa joia criada no Brasil, com a bênção anual do carnaval. Cantarolando suas canções, os cracudos olham a câmera e dançam também. O fi lme consegue outra possibilidade para o confronto com o temido marginal: a arte. Através da performance surgem novos encontros, novas compreensões para o dilema de estar nessa fascinante encrenca que é o século XXI. Uma experiência para além do cinema e da dança, um desejo de profunda transformação da vivência urbana, uma homenagem às histórias da glamourosa Boca do Lixo e à simplicidade e grandiosidade da sabedoria popular.    (Cristiana Miranda)

CRISÁLIDA, CE, de Thiago César
Quando você assiste Crisálida, curta de Thiago César, percebe nitidamente um ponto fora da curva. O próprio personagem principal é um sujeito fora dos cânones. O autista assume o enredo, autodenomina-se Ele, assim mesmo na terceira pessoa, e vive a trama de seu cotidiano com um lisérgico distanciamento. O autista não fala, o autista transmuta um par de pés num rabo de peixe, o autista passeia num fusca vermelho no meio do oceano. O roteiro de Crisálida tem um traço psicodélico e bem humorado, sem deixar barato para os bom mocismos narrativos. Elementos do fabulário aquático, do chuveirinho de mão aos polvos amarelos e flutuantes permeiam o curta. O personagem é um mergulhador, um explorador, um astronauta da rotina. O tempo do filme; psicológico, elástico. Um banho pode demorar dias enquanto uma semana poderá ser uma rápida sequência de palavras; o personagem vive num plano paralelo, o curta disseca este psicodeslocamento. A direção de arte ousa; uma serie de colagens surrealistas contracenam com planos totalmente crus numa casa de bairro com seus quadros de natureza romântica, o programa de auditório na TV, o relógião atrás da cadeira, as panelas no fogão e pitadas de estranheza como barcos de origami coloridos na decoração da sala. As colagens são assumidas como tais e a linguagem do vídeo, trabalhada com afinco, dialoga com o universo "pop-podreira".
Nada de parecer cinema, 35 mm ou 16; em Crisálida o assunto estético é o vídeo. Crisálida é um curta com tempero de novidade. Vale a experiência.      (Manu Sobral)

Ambos os realizadores estarão presentes nas sessões dos filmes no CInema 1 do CCBB RIo para conversarem com o público após a sessão!

Em breve, aqui mesmo, os outros 5 curtas e 1 longa destacados nesta edição!

 

 







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