Navarro

 

Por Chico Serra

No capítulo Esboço de uma Escola Baiana, em Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, Glauber traça uma perspectiva histórica do cinema, das artes plásticas e da literatura na Bahia, apontando, em relação à produção cultural baiana de então que o improviso, o romantismo e o discurso descritivo marcaram (e mal) as expressões artísticas da Bahia: “Jorge Amado (…) não carrega a disciplina de Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto.” No mesmo capítulo, faz uma análise (crítica?) da estética baiana: “a Bahia é – na síntese – o barroco português, o misticismo erótico africano e a tragédia despojada dos sertões.” Dentre os principais filmes do Ciclo do Cinema Baiano, compreendido entre os anos 50 e início dos anos 60, uma abordagem social mais profunda e de inspiração neorrealista começou a questionar essa tipificação (reflexo da visita de Rossellini à Bahia?); e filmes como Um Dia na Rampa, A Grande Feira, Barravento e o premiado em Cannes O Pagador de Promessas, com estéticas e temáticas diversas, voltaram-se para outras características sociais e culturais, desmistificando o exotismo tropical de produções filmadas na Bahia por forasteiros (brasileiros ou estrangeiros).

Alguns anos depois, o cinema da Boca do Lixo influencia experiências como Meteorango Kid – Herói Intergaláctico (1969), de André Luiz Oliveira, e Caveira My Friend (1970), de Álvaro Guimarães, que prepararam o terreno (ou melhor dizendo, o terreiro) para o anti-herói Superoutro “baixar” em Bertrand Duarte, desafiando a lei da gravidade na subversão audiovisual de Edgard Navarro, realizada em 1989. Não por acaso, o crítico baiano André Setaro saca a genealogia: “Superoutro é filho de Meteorango Kid.”

Edgard Navarro Filho (Salvador, 1949), formado em engenharia civil (diploma que “trouxe um vazio enorme (…) minha alma estava em outros mundos”) e artes cênicas, é iniciado no cinema com experiências em super-8 ainda nos anos 70, realizando curtas e documentários provocativos, com destaque para a fábula psicodélica Alice no País das Mil Novilhas (1976). Em seguida, dirige o curta radical O Rei do Cagaço, que o próprio diretor apresenta como “filme excremental”. Explica: “Foi em 77, minha segunda experiência em cinema, e o filme se constrói a partir desta cena, acho uma cena fundamental, que é a coisa do excremento, o filme era o filme anal, sobre a retenção anal, sádica, de nosso mestre Freud.” Exposed, seu terceiro filme da “trilogia freudiana”, é uma provocação em torno de um símbolo fálico militar (em plena ditadura) e Na Bahia Ninguém Fica em Pé, realizado em parceria com José Araripe Jr. e Pola Ribeiro (1980), é um documentário anárquico sobre a situação do cinema de autor e livre frente à institucionalização do cinema “industrial” baiano daquela época. Essas experiências em super-8, marcadas pelo humor cáustico e precariedade técnica, sinalizam uma crítica a um cinema industrial e apontam para um radicalismo estético, que não se via há algum tempo na Boa Terra, apesar dos esforços experimentais solados no final dos anos 60 de André Luiz Oliveira e Álvaro Guimarães, e do curta de estréia de Glauber Rocha, O Pátio (1959).

Entre 82 e 84, Navarro realiza seu primeiro curta em 35mm. Porta de Fogo aborda os últimos dias de Lamarca no sertão baiano com uma mistura de guerrilha, filme de cangaço e misticismo anárquico que ganha prêmio em Brasília no ano de 1985. Na tentativa de esconder-se dos militares na aridez nordestina, o guerrilheiro entra em crise: como conciliar um discurso urbano, de intelectual de esquerda com a aridez, geográfica e social, daqueles sertões?Porta de Fogo tem duas chaves que conduzem a uma tentativa de síntese da obra de Navarro: o problema da ideia de uma cultura intelectualizada e/ou dogmática (tanto de esquerda quanto de direita), frente ao primitivismo brutal do sertão e do sertanejo; e o diálogo entre uma visão política radical (a guerrilha de Lamarca) e o delírio místico e anárquico, evocado pelo cangaceiro no ritual de passagem. Porta de Fogo é um cordel audiovisual sobre o encontro de Lampião com o Capitão Lamarca na terra do sol. Em 86, Navarro refilma Lin & Katazan, baseado em texto de Chico Buarque, cuja primeira versão foi realizada na década de 70 em super-8. Situando a trama num prédio em construção, Navarro faz sua catarse pessoal e apresenta uma visão bem particular da engenharia civil.

Superoutro, sua obra-prima, é provavelmente seu filme mais conhecido. Curiosamente trata-se de um média-metragem, formato muito marginalizado no circuito exibidor brasileiro. Com influências de Fellini, Pasolini, Buñuel, Glauber e do cinema marginal, o diretor desenvolve algumas experiências iniciadas nos anos 70, agora em 35mm, colocando em choque diversas referências culturais (da religião à televisão, na antológica sequência do protagonista assistindo ao programa do Silvio Santos), e propondo uma libertação total, seja do comportamento, seja da crença nos valores “morais e cívicos”. Em desconcertante atuação, Bertrand Duarte é provavelmente o esquizofrênico mais carismático do cinema brasileiro, percorrendo uma trajetória épica e grotesca pelas ruas de Salvador.

Na revisão crítica realizada em Talento Demais (vídeo produzido entre 94/95), situa o experimentalismo superoitista dos anos 70 como um contraponto temático e estético às grandes produções, sem desmerecer a luta dos realizadores e técnicos baianos, a quem o filme presta uma singela homenagem. É através da produção “marginal“ que muitas questões existenciais, políticas e estéticas pertinentes a sua geração são jogadas nas telas. Porém há a crise e o desabafo: o experimental, no entanto, não enche a barriga de ninguém. Meteorango Kid, visto por Navarro, entra em crise e vai procurar emprego na televisão. Ironicamente, 15 anos depois, André Luiz Oliveira vai produzir para o Canal Brasil justamente um documentário sobre Navarro (Agonia e Êxtase). OPapel das Flores, produzido em vídeo, em 1999, conta com narração zen de Helena Ignez (musa baiana do cinema novo), e é dedicado ao fotógrafo Vito Diniz.

Se por um lado as dificuldades nos campos da economia e política (ou a falta de políticas cinematográficas para o cinema baiano, de caráter mais experimental), atrasaram a realização de seu primeiro longa (no livro Cinema de Invenção, Navarro é chamado de gênio e teria longas em projeto já em 86, segundo Jairo Ferreira), por outro, ao realizar Eu Me Lembro, apenas em 2005, demonstra total lucidez e maturidade na evocação da memória coletiva de toda uma geração, abrindo mão do experimentalismo radical de seus curtas para dar lugar a um memorial poético da contracultura, sem se render às armadilhas visuais de uma autobiografia. Em O Homem que não dormia (2011), propõe novamente a ruptura radical de uma falsa normalidade, entre a loucura e a revolta, e vai do transe místico à “tragédia despojada do sertão”, retomando a parceria com Bertrand Duarte e, ainda, rendendo homenagem a um dos mestres do pioneiro cinema baiano, Luiz Paulino dos Santos.

No caminho para um cinema livre, entre a loucura anárquica e a lucidez não conformista, entre a escatologia e a poesia, Navarro reinventa o cinema de invenção made in Bahia e segue deglutindo o cinema de vanguarda mundial, com seu inconfundível sotaque de baiano “arretado”. Como diria Geraldo Pereira: “Oba! Salve a Bahia, Senhor.”

Confira aqui uma entrevista inédita com Edgard Navarro!

 

 







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