Conheça melhor a curadoria da MFL 2012

Em 2012 a MFL teve em sua curadoria os realizadores Marcelo Ikeda, Christian Caselli, Chico Serragrande, Gabriel Sanna e Manu Sobral. Por quase três meses eles viram e reviram centenas de filmes, entre curtas e longas, para definirem a seleção, fazerem a programação nas três cidades, escolheram os destaques a serem premiados e ainda escreveram textos relativos.

Conheça melhor nossa curadoria lendo os textos abaixo:

 

Tudo muda

Hoje é preciso descansar. Estamos entrando num nevoeiro. Já houve momentos melhores, mas já houve outros piores. Fico pensando no meu curto passado e no tanto que ainda há de se fazer. Há onze anos, tudo parecia “uma festa dos doidinhos”. Era mais divertido e mais proveitoso. Agora tudo resvala num discurso defensivo, e ninguém quer afirmar mais nada. Cada palavra em falso pode ser uma escorregadela. E aí todos correm para cima do muro. Mas cuspir no prato que comeu é feio né? A amizade é linda quando você dá uma festa com cerveja de graça, mas “não há ninguém pra enxugar a sua lágrima e não há ninguém pra açucarar a sua tara”. Realizadores, críticos, curadores, todos com suas poses de Rainha da Inglaterra, dizendo “to be or not to be”, definindo o que é e o que não é, para onde se deve ir e para onde não se deve ir, definindo quais são os rumos do futuro. Mas onde estão os filmes? E os filmes no meio de tudo isso? Os filmes estão lá, adormecidos. Anestesiados pelos egos do circo dos horrores que circunda a tal sétima arte. Não se trata de fazer filmes vagabundos ou sofisticados, e sim filmes honestos. Acredito que “o único caminho é a sinceridade, pois se é doloroso fazer filmes que você gosta mas as pessoas não gostam, é muito mais doloroso fazer filmes que as pessoas gostam e você não gosta”. Não sei mais o que fazer. Não se trata de “celebração da festinha das novidades”, mas sim acreditar num caminho, vislumbrar uma aposta e seguir nela, custe o que custar. Apostar na potência dos processos e na afetividade dos percursos. Fazer um filme de R$5 mil, não para o filme seguinte ser de R$5 milhões como “caminho para a profissionalização”, mas enxergar que é possível existir filmes de todos os tamanhos, de tamanho P ao GG. Não ter vergonha de ser o que se é. Não é “levantar a bandeira das novas profecias” mas admitir que se quer somar a um grupo de resistência a uma cultura massificada, vulgar e grotesca que assola não só nosso país mas o mundo. Querer ser parte de algo não apenas quando convém, mas ser de fato, na maré baixa e na maré alta. “A dignidade do homem se revela nos momentos de crise”. Ou, como diz um provérbio chinês, “Lição 1: tudo muda. Lição 2: tudo muda”. Não é ser prepotente mas sim ser ousado. Na vida muitas vezes o que é bom não se resolve pela força mas pelo jeito. É preciso ser afetuoso mas também violento. Eu ainda quero acreditar que as pessoas que fazem cinema não o fazem meramente para chegar ao poder ou para massagear o seu ego, mas porque acreditam que o cinema é um instrumento efetivo de busca da liberdade, de engajamento num mundo menos viciado pelos preconceitos e pelo utilitarismo. Fazer um filme radical, para poucos, não é necessariamente fazer um filme egocêntrico. Egocêntrico é quem faz um filme de 1 milhão de espectadores apenas para entrar na high society do cinema brasileiro. Arrogante não é a pessoa que se isola mas a pessoa que se integra por mero interesse. A maior parte das pessoas são como zumbis. Elas apenas repetem o que jogam para elas. Meros zumbis. Acredito que a vida pode ser mais do que isso, mesmo que para isso eu tenha que apostar tudo o que tenho, tanto que corra o risco de acabar sozinho. Ou louco. A solidão pode ser uma opção suicida mas ela também pode ser uma aposta necessária. Assim como os ciclos da natureza, e os animais que se isolam para morrer ou para acasalar. Os pássaros ainda cantam (continuam cantando), mesmo que você tape os ouvidos! Antes só do que mal acompanhado. E lá vem de novo todo aquele papo caduco de que “é preciso fazer filmes para o público”. Como diria o João Cesar Monteiro, “que se foda o público!!!” Pois o que é “o público”? Os zumbis? Agradar ao público é função da publicidade, não do cinema. Dar ao público exatamente o que ele quer ver. Fazer pesquisas de audiência para determinar o que exatamente se quer ver. E o público sempre vai escolher ver o que ele já sabe, o que ele já conhece, ter uma experiência confortável. É muito confortável confirmarmos todas as nossas certezas, de que conseguiremos se lutarmos, de que se formos competentes venceremos, de que se formos honestos teremos oportunidades, etc. Quem quer sair de casa e pagar um ingresso para ouvir coisas desagradáveis, que tirem o nosso chão? Mas o papel do artista é confirmar as certezas do mundo? É falar o que precisa ser dito, e não o que se quer ouvir. É instaurar a dúvida. “Mas será mesmo? Será que sua vida, que você construiu com tanto esforço, é o que você pensou ser? Será que essa sua vida está te levando a algum lugar?” Quem quer dormir pensando nisso? Os zumbis certamente que não. Mas aí volta o discurso defensivo. Me dizem: “por que não posso querer fazer o meu filme de R$5 milhões?” Ora, poder pode. Pode-se tudo. Mas paga-se um preço. Gustavo Dahl citava uma frase de um crítico marxista que dizia “o primeiro argumento de um filme é o seu orçamento”. Tudo na vida tem um preço. O conforto. Ou a liberdade. Venho tentando, há onze anos, ter um caminho digno, escolhendo pelo segundo. Por isso, pago um preço. Querem me fazer acreditar que estou sozinho ou que sou invisível, mas minha voz ecoa, pode apostar nisso. “A verdade sempre prevalecerá”. Já houve momentos melhores, mas já houve outros piores. Estamos entrando num nevoeiro. Hoje é preciso descansar.

Amanhã voltaremos a pegar em armas.

Marcelo Ikeda 

 

Enfim atingimos a liberdade?


Liberdade, liberdade… esta palavra sempre foi o trunfo e ônus da MFL. Nunca soubemos exatamente o que era isto, mas sempre tecemos hipóteses. Também sempre nos ficou claro que, assim como a Verdade, é impossível atingir a “liberdade absoluta”. Viver já impõe barreiras na liberdade, já que sobre-viver é preciso. Mas, em termos audiovisuais, existem possibilidades latentes, como o uso dos próprios recursos pra se fazer o que se quer, a quebra da narrativa convencional ou mesmo sequer contar uma his(es)tória. Em termos mais poéticos poderíamos ampliar isto para os outros sentidos não citados, criando o audiotatovisual (se é que cinema também não inclui o tato, vide o ar condicionado ou a poltrona, ou mesmo a coxa da sua namorada), o audiopalatovisual (uma contribuição da pipoca?), ou o audiolfatovisual, o audiolfatatovisual, o palataudiolfatatovisual e assim vai. Se é que o cinema sempre foi assim e nunca nos tocamos. Ou, sei lá, criar sentidos novos. Por que só cinco?

Também nós, da MFL, sempre soubemos que um filme, para ser livre, teria que sair da gaiola da sala de cinema. Aliás, por estas e outras me parece muito mais simpática a expressão “audiovisual” do que “cinema” e, muito menos, “sétima arte”. Mas não é à toa que, pela primeira vez, em 11 anos, conseguimos instituir no espaço do CCBB-RJ, a nossa cabine livre, mais especializada em videoartes. Antes, durante o processo de curadoria, recebíamos exemplares do gênero que iam totalmente ao encontro com a nossa proposta-titulo, mas nos doía perceber que eles seriam exibidos em um local inadequado. Em 2012 estamos mudando esta história, passando tais obras em loop um dia inteiro num local onde os espectadores entrarão e sairão a qualquer momento. Quer mais liberdade que isso?

Sim. Quero. E existe.

Estamos vivendo a tal da era digital. Não sei se isso vai entrar pro calendário escolar, assim como a Idade Antiga, Média, Moderna, Contemporânea etc (aliás, sempre achei o último nome muito esquisito, pois… que nome ela terá quando for obsoleta? Será “contemporânea” a o quê?). Mas o que importa falar aqui é que nunca a tecnologia fez tanto parte das nossas existências. É claro que nostálgicos e hippies em geral condenam isto, lembrando de que a natureza é mais importante que tudo e alertando sobre a nossa dependência por aparelhos. E eles têm razão – e só perceber o quanto nos sentimos perdidos quando não achamos o nosso celular, por exemplo, ou quando estamos sem internet. Mas não utilizar estas ferramentas me parece uma grande tolice. Ora, por que uma caneta esferográfica é menos fruto da tecnologia que um laptop? Por que foi inventada há mais tempo?

E é devido à tecnologia atual que nunca, na História da Humanidade, a informação esteve tão difundida. O que antes era escamoteada agora se escancara cada vez mais. Para avaliar melhor isto, é interessante observar a evolução internauta: primeiro vieram os sites e os e-mails (revolucionando a comunicação), logo depois vindo a possibilidade dos downloads (que causaram toda uma mudança do consumo da arte, fazendo com que as grandes gravadoras perdessem o sentido). Daí veio sites como youtube, que redimensionaram o assistir audiovisual, dando possibilidade de qualquer pessoa poder se expressar. Assim, fenômenos espontâneos – e totalmente inusitados – apareceram: desde a professora nordestina Amanda Gurgel metendo o sarrafo na educação brasileira a bobagens como “Luíza está no Canadá”. Ora, mas viva a bobagem quando ela é espontânea e não-imposta goela abaixo.

Até que chegamos ao pulo do gato: as redes sociais, onde a informação tem encontrado melhor o seu escoamento. Enfim, parece que finalmente um sonho foi atingido: o não-monopólio da notícia. A população em geral agora não depende mais do filtro de meros cinco ou seis canais de TV aberta ditando uma espécie de “realidade oficial”. Esta averiguação atingiu um ápice com a prisão de Julian Assange, criador do site WikiLeaks, especializado em divulgar documentos comprovando ações escusas do governo estadunidense. Assange foi preso sob a acusação de ter comido uma mulher sem camisinha (?), ficando evidente que se tratava de uma prisão política. Uma mobilização mundial veio em defesa do rapaz comilão, assim como a prisão do líder do Megaupload, Kim “Dotcom” Schmitz, dando abertura para que o grupo Anonimous se manifestasse invadindo sites como o da gravadora Universal e mesmo o do FBI.

Não que o mundo mais uma vez esteja dividido entre mocinhos e bandidos e que Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, seja a bondade em pessoa, embora até tenha cara de gente-boa. Tudo o que está acontecendo é uma grande luta de cachorro grande. São corporações antigas, que ainda acreditam em concepções defasadas do direito autoral, contra as megacorporações atuais, vide Google e Facebook, que ficaram bilhardárias por justamente se beneficiar do alardeamento da informação. Agora seus clientes – ou seja, a população em geral – ficou mal acostumada…

E este reboliço está se alardeado pelo mundo. Não sou especialista no assunto, mas creio que o crescente processo de democratização de parte do mundo árabe deve estar passando por aí. E a coisa, é claro, chegou ao Brasil. Enquanto certas emissoras insistem em propagar idiotias como os Big Brothers e Fazendas da vida, paralelo a isto a informação está correndo solta. Um caso recente e gritante a ser relatado foi a desocupação no Pinheirinho (em São José dos Campos, SP), onde poucas vezes ficou tão evidente a dicotomia Capital X Humanidade. Porém cada vez mais o lema do Centro de Mídia Independente, o CMI, fica mais em voga: “seja a mídia”. Tanto que o bravo Pedro Rios fez seu vídeo de denúncia, com o chamativo nome “Eu quero matar a presidenta” e partiu para um auto-sacrifício: fez uma greve de fome em frente a uma certa emissora de TV (justamente a única que foi pré-avisada da invasão policial). E isso gerou discussão.

Mas o caso citado está longe de ser isolado. Cada vez mais a informação vem sendo transmitida e, felizmente, debatida. Dentro deste sentido, uma pergunta vem à tona: será que nunca roubaram tanto no País? Ou sempre foi assim e agora vem sendo mais evidenciado? Mas, para concluir o texto, que quis refletir sobre a liberdade audiovisual: pois é, ela realmente está fora do conforto da sala de cinema. Ela esta na sua casa ou mesmo no seu laptop e celular.

Estamos vivendo uma época única na história da humanidade. Falem mal dela, mas, por favor, reflitam sobre esta unicidade. E agora? Como diria o pagodinho safado: o que fazer com essa tal liberdade?

Christian Caselli

 







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